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PASTORES, O QUE FAZEM?

Publicado: 1 de abril de 2012 em Teologia prática
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Está certo. Há pastores e pastores. Há pastores e lobos, já testificou o pr. Osmar Ludovico em seu artigo da revista Enfoque Gospel.
Embora ambos gostem de ovelhas e vivam perto delas, e hoje não está fácil distinguir entre uns e outros.
Portanto, começo afirmando neste estudo que nossos pastores são verdadeiros e aqui inclui a legitimidade como vindo do próprio de Deus que chama e comissiona para uma obra tão especial que é cuidar do seu rebanho.
Vamos logo ao ponto: Qual é afinal, o papel de um(a) pastor(a) em nossa igreja, no reino de Deus e no mundo? Sim, porque ser pastor não é algo institucional, mas orgânico, vivencial, do dia a dia. Bem você pode me dizer que é o de cuidar, está certo, mas o termo cuidar é muito genérico e no caso do ministério pastoral está fora o “genérico”. Tudo precisa ser especificado.
Esta resposta se fosse em “tempos idos” seria mais fácil de se dar porque não havia muitos modelos na época. Hoje essa resposta se tornou especialmente complicada. Por que? Porque apesar de temos os textos bíblicos sobre o ministério pastoral e até a práxis corretas em igrejas saudáveis, a configuração desta área no mundo gospel tem trazido novos papéis que destoam em parte ou completamente daqueles estipulados pelo Senhor do ministério.
Basta pregar bem, ou um líder, por sua autoridade, impor as mãos sobre um candidato ou a própria pessoa ter uma “revelação especial”, ser um empresário da fé ou esposa de um pastor para ser tido e empossado como pastor. Em minhas classes de ministério pastoral nos seminários teológicos onde tive oportunidade de ministrar aulas sempre afirmo o seguinte: “Jesus disse para que tivéssemos cuidado com lobos em pele de ovelhas, mas em nossos dias ele também certamente diria: ‘Tenham cuidado com lobos em pele de pastores’.”
Mas vamos devagar à conclusão de que atualmente somente há coisas ruins sobre o papel que um(a) pastor(a) deve exercer.
Creio que em relação ao exercício do ministério pastoral em outras gerações temos, apesar dos negativos, aspectos positivos conquistados por uma exegese mais correta e, principalmente por uma hermenêutica mais contextualizada e por isso mesmo mais autêntica. Resta-nos debruçarmos nos textos bíblicos e na experiência vivencial de ser igreja autêntica para encontrarmos o ponto exato para essas pessoas que são servos do altíssimo e precisam realizar com excelência seus ministérios corretamente.
Textos Bíblicos sobre pastores
Para o nosso estudo escolhi os textos que estão no Novo Testamento. Os principais são: Atos 14:23; Atos 20:28; Efésios 4:11-12; Filipenses 1:1;1 Tessalonicenses 5:12;1 Timóteo 3:1-7; Tito 1:7-16; Hebreus 13:17; I Pedro 5:1-4.
Estive em um encontro e um pastor utilizou o texto de Atos 6 como um texto para definição do papel pastoral. Embora esteja falando sobre liderança eclesiástica não é sobre pastores, mas sim sobre outro dom-ministerial, o apostolado. Este é o problema de se pinçar textos para expressar o que queremos ser ou ter.
Agora os textos acima mencionados podem ser questionados também. Antes que isso aconteça deixe-me justificar porque eles estão sendo apresentados como legítimos para nossas conclusões sobre o ministério pastoral.
Os textos falam sobre liderança e testificam sobre várias funções existentes na igreja do 10 século, mas o que nos interessa no momento são: Anciões, Bispos, Presbíteros e Pastores. O apóstolo Paulo gostava de colocar nomes nas funções e era preciso que isso acontecesse, pois a igreja estava se formando aos poucos e agora seus líderes precisariam ser diferenciados dos demais líderes da sinagoga e do templo de Jerusalém pelos menos em alguns termos para as novas funções que eles teriam que desempenhar.
Nossa igreja prefere, por ser Batista, o termo pastor como, digamos quase sinônimo, ou um termo que agrega os demais: de ancião, bispo e presbítero. Usamos este termo por alguns motivos:
1. Ser um termo utilizado no AT;
2. O próprio Deus se utiliza dele para falar com o seu povo em termos de relacionamento;
3. Ser um termo orgânico, menos institucional – isto quer dizer que expressa relacionamento, vida;
4. Ser uma expressão que abarca todas as demais já que vamos ver que os pastores precisam aconselhar, supervisionar e proteger o rebanho de Deus;
Deixemos para os nossos irmãos presbiterianos e demais a opção de se utilizarem dos mesmos. É interessante que gostam de se referirem aos pastores de reverendos, outro termo bem institucional. Eles não estão sendo hereges com isso, apenas escolheram usar literalmente cada nome que aparece no NT para sua liderança.
Agora sim, vamos trabalhar o termo pastor e definirmos o que os nossos pastores fazem no dia-a-dia.
Tudo tem a ver com o cuidado da alma, do corpo e do espirito. Sim porque somos um todo e quem cuida de nós precisa ter a consciência de que somos um todo.
Todo este cuidar passa por três grandes áreas de ação como apresentadas abaixo:
a- Um pastor tem a autoridade e responsabilidade de ensinar e pastorear a Igreja (Atos 20:28; Efésios 4:11-12; 1 Tessalonicenses 5:12; 1 Pedro 5:1-4);
b- Um pastor tem a responsabilidade e autoridade para proteger a Igreja de falsos ensinos (Atos 20:28-31; 1 Coríntios 14:29; 1 Timóteo 4:1-6; Tito 1:9-13);
c- O pastor tem a responsabilidade e autoridade para supervisionar todo o trabalho da Igreja (Atos 20:28; 1 Tessalonicenses 5:12; 1 Pedro 5:1-2)

Mas como nossos pastores fazem isto?
1. Relacionando-se – Relacionamento é o principal instrumento que um pastor tem para cuidar de seu rebanho. Não existe pastor sem um rebanho, porque simplesmente faltará o alvo do seu trabalho: o outro. Um pastor é dotado por Deus para desenvolver relacionamentos de longo prazo com um grupo de seguidores de Cristo e assume a responsabilidade por seu desenvolvimento espiritual.
Pastores são pessoas que amam estar perto de pessoas e quando estão são instrumentos de Deus para abençoá-las através de palavras e outras expressões afetivas. Gostam de convívio, choram pelas suas ovelhas, olham nos olhos, têm amigos, sujam os pés nas estradas em busca de almas, apaziguam relacionamentos e fazem de tudo para abençoar o outro. Mais do que papéis, negócios e administração eles amam estar com gente de carne e osso, às vezes mais carne, às vezes mais osso. Mais gente que é imagem e semelhança de Deus.
Os pastores devem rejeitar outra postura que não seja esta. Se pode ser dizer que relacionamento é trabalho, nossos pastores trabalham muito quando conversam no rol do templo, nas casas, nas ruas, nas visitas, enfim na vida e sabem que isso é essencial para seus ministérios.
2. Aperfeiçoando os santos – Esta tarefa não cabe somente aos pastores conforme Efésios 4:11-12, mas também a eles. Disto os pastores não podem se eximir. Nas igrejas batistas, de maneira geral, este papel ficou para os educadores cristãos, mas é lamentável que isso ocorra. Cabe ao pastor a inciativa, a condução do processo, pois ele é a peça fundamental pela autoridade que exerce no rebanho para que aconteça efetivamente o aperfeiçoamento que pode-se dar de diversas maneiras e por várias pessoas do corpo de Cristo. Os pastores  devem pensar assim. Por isso não devem e se recusam em fazer tudo, em serem guardadores do saber. O maior prazer deles deve ser ver o outro se amadurecer na fé, no serviço cristão. É quando uma ovelha começa a sua trajetória sem saber andar no meio eclesiástico e aos poucos vai se tornando líder e se transforma em grande bênção na casa de Deus e em seu Reino. Há alegria maior do que esta para um pastor? Certamente que não.

3. O ensino – Todos devem ensinar sobre o que aprenderam como parte de um discipulado bíblico, mas cabe aos pastores ensinarem usando da prédica, estudos em sala de aula, ensinos informais, escritos ou outra forma de comunicação. Nem todo mestre é pastor, mas todo pastor é e precisa ser mestre ainda que alguns tenham mais habilidade nesta área do que outros. Apesar de hoje muitos pastores acharem que a pregação é a única forma de ensino que eles devem exercer, precisam desenvolver a arte de ensinar tendo na medida do possível uma boa didática para que suas ovelhas possam compreender na prática, a profecia vinda da parte de Deus. Todos os pastores de nossa igreja devem estar comprometidos no ensino quer formal ou informal, conforme 2 Timóteo 4:2 e 3 onde o apóstolo Paulo instrui Timóteo a ser um pastor de ensino: “Pregue a Palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte – com paciência e doutrina”.

4. Apresentar o rebanho a Deus – Sim, orar. A maioria dos crentes, apesar de achar, que cabe ao pastor orar por suas ovelhas não consegue entender que isso faz parte de seu trabalho diário. Um irmão certa vez ligou para a igreja de um dos meus colegas e a secretária disse que naquele momento o pastor estava em oração no gabinete pastoral e não poderia atendê-lo. Ele ficou furioso porque o pastor não podia atendê-lo a final de contas ele só estava orando?! Na verdade eu nunca ouvi em um Concílio Examinatório de um candidato ao pastorado alguém perguntar sobre quantas horas de oração o candidato ora por pessoas. Também quando os pastores são convidados para pastorearem igrejas muitas são as perguntas feitas a ele, mas sobre oração intercessória, poucas ou nenhuma. Cabe sim ao pastor interceder pelo seu rebanho. Os joelhos de um pastor fazem toda a diferença. Toda oração feita por um filho de Deus tem como chegar ao Pai se for bíblica, mas creio (me permitam dizer isso) que pela autoridade que o pastor tem da parte de Deus como líder espiritual de uma igreja local, quando ele ora existe um elemento diferenciador. Há uma dimensão de conhecimento sobre suas ovelhas por parte deste pastor que é expresso na oração e que cria digamos uma intimidade com o Senhor fazendo as coisas acontecer. Disto também depende a sua autoridade.
5. Administrar a casa de Deus. Na verdade, aqui está um dos pontos polêmicos que no passado não se tinha. Muitas igrejas hoje têm a teoria e a prática de que cabe ao pastor às questões espirituais e aos gestores as administrativas. Coisas dos nossos irmãos americanos do norte e dos da Europa. O que é preocupante neste posicionamento é a dicotomia que se faz entre o que é espiritual e material e, a meu ver, o que é pior, a respeito da questão do cuidado pastoral que se limita a alma e ao espírito não passando pelo corpo.
Não acredito em pastores que separam a administração do cuidado do seu rebanho. Com isso não quero dizer que ele pessoalmente precisa administrar a casa de Deus. Ele pode ter uma equipe que faça isso sob a égide dele, pois ainda sou daqueles que acreditam que a visão de Deus para o rebanho vem para o pastor titular de uma igreja local, é compartilhada com seus pares e dialogada, trabalhada pela igreja através de sua liderança e membresia.
Portanto, a questão não é se o pastor deve ou não administrar a casa do Senhor, mas como ele fará isso: de uma maneira centralizadora, não sobrando espaço para as outras formas de cuidado, ou de uma maneira compartilhada, por meio de pessoas capacitadas pelo Espírito para este serviço específico. Os pastores não devem fugir de sua responsabilidade administrativa, mas devem possuir uma equipe de alto nível para ajuda-los.
6. Aconselhando – Deixei por último esta forma de cuidado porque acho que nossa igreja precisa entender que seus pastores podem abençoar as vidas de seus membros através do aconselhamento. A membresia de uma igreja precisa criar a rotina de buscar conselhos pastorais. Cabe aos pastores ajudar suas ovelhas nas horas de decisões, nas lutas, nas dúvidas e na vida. Temos a bênção de termos pastores e pastora para poder realizar esta obra de maneira mais pessoal. Os pastores não são psicólogos ou terapeutas. Eles são conselheiros na Palavra de Deus. São preparados nos Seminários para isso. Leem e devem ler cada vez mais sobre como aconselhar pessoas. Creio que a diferença entre um psicólogo e o pastor, além dos estudos específicos de cada área, está no fato de que cabe ao pastor instruir as pessoas no que diz a Palavra de Deus. Ao psicólogo cabe outros papéis.
Conclusão
Certamente outras formas de cuidado devem ser exercidas pelo pastor, mas para esta lição basta as seis que acabamos de refletir.
Quero terminar esta lição dizendo o que o pastor não é. Isto é importante para que as expectativas das ovelhas estejam dentro da realidade e para que nós os pastores não venhamos a morrer cedo demais de tanto trabalhar e o que seria pior trabalharmos naquilo para o qual não foram chamados.

Os pastores não são:
1. Pais e mães – Os pastores não podem substituir os pais naturais de cada um. Há uma moda gospel hoje de chamar os pastores de pais e as pastoras de mães. Isto não é bíblico e nem batista, mais se parece com a herança católica em que o padre é o pai da paróquia.
2. Assistente social – Ainda que ajudem, não podem ficar correndo com o membro para um lado e outro sempre. Isso, em primeiro lugar, cabe à família do membro.
3. Psicólogo – Não tem formação para isso e mesmo que tivesse seu papel como pastor não permitiria ter a postura de um psicólogo.
4. Empregado da igreja – Embora possa ser contratado pelo regime da CLT, a igreja deve entender que ele é um sacerdote para ela e que a contratação é um benefício para os seus pastores e uma proteção legal para a igreja. Se o pastor for tido como um empregado da igreja no trato diário, ele perderá a voz profética, disto tenho absoluta certeza.
5. Músico – Cantar ou tocar não faz parte da tarefa pastoral ainda que em muitos casos “em terra de cego quem tem um olho é rei”. Cabe a ele conduzir o culto, se for necessário, dentro de seu chamado. A não ser que tenha o dom do serviço na área musical. Mesmo assim deve tomar cuidado para não monopolizar o altar.
6. Artista – Ele não é uma pessoa que tem uma performance em cima do altar, ele é um servo de Deus que prega a Palavra.
7. Um agente de crescimento da igreja – Ele não é responsável pelo crescimento da igreja. Quem é e sempre será é o Senhor. Toda a igreja é instrumento do Senhor para o crescimento.
8. Jesus – Com certeza sua autoridade vem de Jesus, mas apenas isso.

Que o nosso compromisso de ser uma igreja mais bíblica e comprometida com o evangelho de Cristo nos faça entender a vocação de nossos pastores e tê-los como instrumentos de Deus para as nossas vidas.
Fica o conselho da parte de Deus para cada ovelha: “Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil” (Hebreus 13:17).

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