A FILHA DE FARAÓ: QUEM SE IMPORTA?

Publicado: 19 de fevereiro de 2010 em Teologia prática
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 Sobre mulheres ao pastorado batista

A causa não somente é nobre, mas é justa. Mulheres chamadas por Deus para exercerem o ministério pastoral precisam de espaço legitimado em nossa Convenção e na OPBB e enquanto isso não ocorrer como precisa acontecer, para usar a expressão preferida do nosso presidente Lula, a luta continua. Uma luta não com espadas, mas com o cajado. Uma luta que se trava não em um dia, como Davi e Sansão, mas no dia-a-dia como o próprio Davi e Saul, que desafia até a última hora a própria fé. Mas não podemos deixá-las lutar sozinhas, nós os pastores, isso é injusto. Afinal de contas é de se esperar que sejamos hábeis no cajado, não é verdade? Temos que ajudá-las neste santo ministério de exercerem seu dom em toda amplitude que se precisa ter. Creio no trabalho em parceria. Como se faz isso?

Nestes dias estava lendo a história de Moisés, a narração que se encontra em Gênesis 2:1-10 e me detive não nos hebreus, em Faraó, Joquebede ou Miriam, mas na filha do imperador. Sempre em minhas devocionais tenho me perguntado o que tenho a ver com o texto lido. Com os hebreus creio que somente a fé, pois não me encontro sobre a opressão de um ditador, de um poder déspota, em relação à situação financeira e de conforto estou mais para ser um Egípcio do que um hebreu; com Faraó muito menos. A dor da mãe e da irmã de Moisés também não é a minha. Então só me resta a filha de faraó. É possível aprender com alguém que não faz parte da aliança com Deus? Claro que sim. Quais as lições que esta mulher rica e poderosa pode ensinar àqueles que querem fazer a vontade de Deus cooperando com as pastoras em seus pleitos?

É preciso ver. Ela viu o bebê dentro de um berço de junco. Nem sempre é fácil ver, ainda mais quanto o objeto de nossa visão não faz parte do nosso mundo, das nossas preocupações, como no caso da princesa do Egito. Não sabemos o nome desta moça, nem o seu temperamento, o grau de sensibilidade que tinha diante do outro, o que nos facilitaria chegar à conclusão porque ela viu. O fato é que apesar de não a conhecermos ela parou o seu banho para ver. Tudo começa com a disposição que temos de ver o que está em nosso rio, onde nós confortavelmente estamos nos banhando. É incrível que mesmo diante de tantas pastoras no cenário batista, mais de cem, pastores do gênero masculino continuam querendo, propositalmente, ignorá-las como se elas não existissem. Ainda estão discutindo se é ou não é bíblico, questões sociológicas, econômicas e espirituais. É como que Moisés passando diante das vistas da princesa e ela não olhasse. Isso até poderia acontecer com ela, pois não era do povo de Deus, mas quando acontece com homens de Deus é lamentável. Nós pastores-homens deveríamos aprender a olhar com o nosso mestre Jesus. Seu olhar sempre foi atento para os marginalizados e para com aqueles que precisavam de ajuda, particularmente com mulheres. É preciso deixar o colírio de Deus dilatar nossos olhos para identificar nossos problemas de visão e nos receitar as lentes com graus corretos para que vejamos o que precisa ser visto.

É preciso querer abraçar. A filha de faraó não somente viu, mas resolver tomar o bebê em seus braços, criá-lo, providenciar tudo para o seu crescimento sadio. Como isso foi possível? Creio que um milagre aconteceu, pois o normal seria ignorar a criança ou no máximo providenciar uma pessoa para cuidar dela, de preferência que não tivesse nenhuma ligação com o reinado. Há muitos filhos no Egito! Ela assumiu a maternidade tendo um filho hebreu do coração. Trouxe um fruto da escravidão para dentro de seu mundo, de sua casa. Absolutamente incrível esta mulher. Outro dia soube de um pastor famoso em nossa denominação que disse o seguinte: `Não está em minha agenda o assunto das pastoras por isso não me pronuncio´. Outro ainda disse: ´Não sou vocacionado por Deus para abraçar esta causa, deixo para os que são´. Sinceridade à parte, o inferno está cheio de gente sincera, a questão presente é de luta por justiça e quem não é chamado para tal? E que agenda pessoal não cabe tal pauta? Sinceramente o que falta são pastores-homens que queiram abraçar a causa como a princesa assim procedeu com Moisés. Não é um abraço de guerrilha, como só nós homens sabemos dar, mas um abraço cheio de compaixão porque assim como aquela pequenina criança no rio, as pastoras precisam de ajuda eficaz para não serem devoradas pelo próprio rio. A advertência ao não abraço é a do próprio Deus: não nos deixará sem o julgamento necessário pelas obras que deveríamos fazer e não as fizemos.

É preciso entender os momentos. Era um pequeno momento de banho. Prazeroso com certeza. Nunca aquela moça poderia imaginar que sairia dali como mãe e entraria na história do povo de Deus, não é verdade? Tenho aprendido que os momentos que menos esperamos são os que acontecem coisas em nossas vidas que mudam a nossa história, são as ocasiões em que muitas vezes Deus age e precisamos estar atentos para isso com o prejuízo de perdermos o kairós de Deus em nossa própria história e na história de Deus no mundo. Sua atitude determinou muita coisa na vida de Moisés e do povo hebreu. Nós pastores-homens precisamos perceber estes momentos que Deus tem nos dado para refletirmos nas atitudes que devemos tomar para que as mulheres pastoras possam, como grupo escolhido por Deus, se desenvolver sadiamente. Talvez nesta caminhada tenhamos que assumir a ´paternidade´ que, apesar de serem mulheres, as trazemos para junto de nós porque entendemos que temos condições de dar um futuro melhor e mais do que isso, o essencial, compreendemos que Deus preparou esse momento em nossas vidas para salvarmos um ser que precisa de ajuda, pois está em uma situação injusta.Sempre me pergunto nesta hora o que Deus quer que eu faça de relevante no seu reino? Penso em grandes coisas. Mas tenho aprendido que são as pequenas que movem o mundo ao meu redor. Quem se importa? Como a princesa do Egito, hoje a OPBB possui todas as condições para ajudar nossas irmãs em sua trajetória de peregrinação e fé. Muitos de nós pastores-homens estão em lugares estratégicos no rio de nossa denominação, têm prestigio, inteligência, livre transito, relacionamentos que fazem diferença, possuem o dom do ensino e da prédica, são estudiosos e convincentes quanto a proferir a vontade de Deus de maneira contextualizada e bíblica. Resta saber se realmente estão dispostos a ver, a abraçar e a entender o que o Espírito de Deus está dizendo à igreja, como ele está se movendo nas águas do rio e em seus corações.

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