A INTEGRIDADE DO LÍDER CRISTÃO E A SUA AUTORIDADE

Publicado: 14 de maio de 2009 em Teologia prática
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 A verdade é o alicerce da autoridade

 O que entendemos sobre autoridade?
 
 Segundo Bento Souto[1]   a palavra “autoridade” aparece 68 vezes no texto do Novo Testamento da edição Revista e Atualizada de Almeida – SBB 1997. Todavia, no original grego existem várias palavras para “autoridade”.

A primeira delas é “exousia” e ela é a mais usada para designar “autoridade” no Novo Testamento. Mateus nos diz que Jesus “ensinava como quem tem autoridade (exousia) e não como os escribas” (Mat.7:29).

A segunda palavra usada para “autoridade” é “archon”. Ela também é muito usada no NT, especialmente quando a Bíblia fala de governantes, comandantes, líderes, príncipes, comandantes, etc. Tem a ver com hierarquia. Em Romanos 13:3 lemos “Porque os magistrados (archon) não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a autoridade (exousia)? Faze o bem e terás louvor dela”.

A terceira palavra usada para “autoridade” é “katexousiazo”. Ela só aparece duas vezes no Novo Testamento. Em Mateus 20:25 “Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade (katexousiazo) sobre eles”. E também em Marcos 10:42 “Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade (katexousiazo)”.

A quarta palavra usada para “autoridade” é “exousiazo”. “Mas Jesus lhes disse: Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade (exousiazo) são chamados benfeitores” (Lucas 22:25). Parece que tanto “katexousiazo” quanto “exousiazo” significam a autoridade (exousia) sendo exercida.

A quinta palavra usada para “autoridade” é “huperoche”. Ela aparece apenas duas vezes no NT. Uma delas é numa admoestação para orar “em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade (huperoche), para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito” (1Tim 2:2). E a outra é relativa a palavras usadas por Paulo na pregação. “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação (huperoche) de linguagem ou de sabedoria” (1Cor 2:1). Segundo Thayer, “huperoche” significa elevação, preeminência, superioridade.

Depois de cinco palavras para “autoridade” (exousia, archon, katexousiazo, exousiazo e huperoche) o apóstolo Paulo usa mais uma nesse versículo, “authenteo”.

“Não permito que as mulheres ensinem ou tenham autoridade (authenteo) sobre os homens…” (BLH 2Tim 2:12). Temos que recorrer aos Léxicos se quisermos ter um melhor entendimento, a seguinte explicação é apresentada: “authenteo”: alguém que com suas próprias mãos mata outro ou a si mesmo, alguém que age em sua própria autoridade, autocrático; um mestre absoluto; governar, exercer domínio sobre alguém, “ter completo poder sobre”, controlar de maneira arrogante (tiranizadora), controlar, dominar. “Controlar de uma maneira dominante” é freqüentemente expressado idiomaticamente, por exemplo, “gritar ordens para”, “agir como um chefe para”, ou “latir para”. É um domínio exacerbado, quase sangrento. Esse tipo de domínio foi condenado por Jesus. Ele disse: “Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva” (Mateus 20:25,26).

O fato é que precisamos aprender a exercer de maneira bíblica a autoridade que Deus nos concedeu para o desenvolvimento do ministério em qualquer tempo e lugar.

 

Como podemos ser considerados aprovados neste caminhar?

 

1 – Tendo a consciência de que “huperoche” e “authenteo” não devem ser os tipos de autoridade exercida por líderes íntegros.

 

É possível exercer uma influência impondo-se, dominando, controlando, sendo superior ou acompanhando, escutando, encorajando o crescimento, oferecendo confiança e convidando à responsabilidade. No caminho de nossa liderança teremos sempre as duas possibilidades à escolher.

 

Quando exercemos autoridade do tipo “huperoche”ou “authenteo”, à primeira vista temos a certeza de que agimos bem porque experimentamos o forte senso de dever em ensinar aos outros uma série de verdades. Neste caso o outro não tem nada a dizer; deve escutar, aprender e obedecer. Aqui a autoridade impõe e se impõe. No entanto quando exercemos tal tipo de autoridade não somos capazes de alcançar o outro no seu caminho, não o respeitamos, o tratamos como inferior e criamos um senso de culpa em sua vida.

 

A autoridade sadia é aquela que é exercida para ajudar outros a se tornarem responsáveis.

 

2 – Tendo a consciência de que precisamos exercer a autoridade de Cristo em nós mesmos.

 

 Gosto do versículo: “E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” Jo 8.32 (NVI). A verdade é que nos fará livres de todo o poder maligno que habita em nós, em nossa liderança. Cristo exerceu sua autoridade “exousia” (seu poder de exercer influência) para perdoar pecados, expulsar espíritos maus, vocacionar discípulos, etc. O que fica claro é que todas as atitudes de Cristo eram regidas pelo amor, Ele usou de autoridade para manifestar amor.

 

Na tentação (conf Mt. 4.1-11) ele poderia utilizar sua autoridade”exousia” (direito de agir) para fazer coisas boas, mas elas seria desprovidas de relacionamentos. Onde não há ações de amor, a autoridade se torna sinônima de poder e esse destrói.

Todas as tentações do diabo instigavam Jesus a utilizar a sua autoridade, Jesus poderia utilizar sua autoridade, seu poder, para transformar muitas pedras em pão, e assim, alimentar multidões, governar as nações com poder e equidade e ao ser salvo pelos anjos demonstrar que todos podem confiar em Deus. Mas ele diz não a cada tentação, pois essas manifestações de autoridade estariam sem o invólucro do amor, seriam o poder aplicado a força, sem contexto de relacionamento e amor, seria um poder por imposição. A autoridade “exousia” se transformaria em “huperoche”.

E poder do Espírito não acontece por força e violência, de forma impessoal, mas sempre exercido de forma pessoal, com base em relacionamentos. A autoridade advinda do Espírito Santo não é coercitiva. Depois de ser tentado, Jesus, sempre na autoridade do Espírito Santo, sai pelas ruas da Palestina, alimentando famintos, fazendo justiça e utilizando milagres para evangelizar, sempre no contexto da relação, do pessoal e do amor.

3 – Tendo a consciência dos perigos que cercam a nossa autoridade.

A tentação de consideramos nossa autoridade como instrumento de poder malévolo, “huperoche” e “authenteo”, sempre existiu e sempre continuará a existir.

 

O prestigio e o poder são irmãos gêmeos que nascem de uma autoridade errônea.

 

É o “eu” que se impõe procurando grandes números, dinheiro, sucessos, empreendimentos, proteção. Daqui nascem cruzadas, cercas, barreiras entre quem está dentro e quem está fora. Nasce também uma síndrome de “Messias” levando o líder a “ser” Deus e não amar a Deus, controlar os outros e não amar os outros, possuir a vida e não amar a vida. Leva-nos a responder a pergunta de Jesus: “Tu me amas mais do que estes? (conf. Jo 21.15) da seguinte maneira: “Podemos sentar à tua direita e à tua esquerda?”(conf. Mt 20.21).

 

Uma coisa é clara: a autoridade que é exercida pelo poder e prestigio é tanto mais forte quanto mais intimidade é uma ameaça para o líder. Quando falta o desenvolvimento de relacionamentos saudáveis entre o líder e seus liderados o controle e o poder ocupam a preferência em seu coração.

 

4 – Tendo a consciência de que precisamos de discernimento.

Nosso coração é enganoso. Por isso precisamos buscar em Deus discernimento para percebermos se estamos usando a autoridade de Deus, “exousia”, em nosso ministério.

O esquema de discernimento correto deve obedecer:

· O reconhecer – é preciso, mediante avaliação no Espírito Santo, reconhecer a tentação de ser grande ou de se ter uma grande igreja usando para tanto uma autoridade em que o outro é apenas um número e um meio para alcançar os objetivos; perceber que as tensões, fraturas, solidão, medo, despeitos, amor não correspondido pode ter transformado um líder que usava a autoridade para abençoar em um líder amargo que usa agora a autoridade para manipular.

· O Compreender – Significa passar do que aparece externamente ao significado profundo. Por que a nossa autoridade sadia se transformou em “huperoche” ou “authenteo” ou até mesmo na combinação de ambas? Isso faz com que conheçamos os movimentos que nos levaram a estar agindo dessa maneira. Não reconhecer significa repetir ou perpetuar o passado.

· O Julgar – Agora chega à hora de perguntarmos? Para onde estou sendo levado através da autoridade que exerço? Caminho para ao bem ou ao mal? Deus está satisfeito com minhas atitudes? Podemos dizer como Paulo: “Agora eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim”(conf. Gl. 2.20)?

· O Agir – As reflexões e as avaliações têm de conduzir à decisão. “Segui-me (…) deixando imediatamente o barco e o pai, eles seguiram”(Mt 4.19-22). A única decisão aceitável pelo Pai quanto à autoridade é aquele que se transforma em serviço e só saberemos que realmente estamos trilhando a decisão acertada quando o Senhor a confirmar através de sua bênção sobre nossas vidas e ministérios.

Sei que não é fácil. Erramos muitas vezes no manipular de nossa autoridade. Mas é preciso pedir perdão pelo pecado de usarmos tão precioso dom, a autoridade, de forma destrutiva, mesmo que isso precise acontecer várias vezes em nossa trajetória ministerial.

É preciso sempre lembrar o que Jesus nos disse:

“Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma”. Jo.15.5

Ele tem a autoridade, “exousia”, toda autoridade, se estivermos continuamente nele e ele em nós, daremos bons frutos advindos de sua autoridade.

Exercer autoridade em nossa comunidade é um dos maiores desafios que podemos enfrentar como líderes no Reino de Deus. Nosso padrão é Jesus. Temos que seguir seu exemplo. Qualquer desvio é danoso e desastroso para a nossa vida e do nosso ministério.

[1]   Ver artigo complete no blog do autor: http://blogdobento.blogspot.com/

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