POR QUE OS CRENTES SE AFASTAM? – parte I

Publicado: 1 de março de 2009 em Teologia prática
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  Tenho ouvido e lido muitas coisas a respeito dos motivos que levam membros e não membros saírem do convívio de uma igreja que estão frequentando. Quase sempre a culpa é atribuída ao líder da igreja ou à própria igreja por falta de visão contemporânea, filosofia arcaica, sistema administrativo institucionalizado ou outras, causando um sentimento de culpa, muito grande na vida do ministro, da equipe ministerial, caso haja, liderança e na própria igreja.

É claro que há verdade em muitos destes comentários. No entanto, tentar reduzir a saída de pessoas da igreja, sejam elas membros ou não, a somente estas causas é no mínimo injusto porque, na minha experiência pastoral e no que tenho observado em outros ministérios, há momentos na vida da igreja que, mesmo tendo todos estas causas bem resolvidas, ainda assim as pessoas saem do convívio do corpo de Cristo local. Para mim, isso sinaliza que há outros motivos que levam as pessoas a deixarem de pertencer a uma comunidade cristã que precisam ser levados em consideração para que se possa, através de ações concretas e práticas, trabalhar pastoralmente estas saídas a fim de contê-las ou até mesmo encará-las como parte natural do processo de ser igreja.

Neste capítulo, apresento uma série de motivos para reflexão, objetivando trabalhar a vida da igreja, fazendo-a mais consciente de suas responsabilidades e, ao mesmo tempo, sem o peso da culpa por perder pessoas que lhe são preciosas.

Não há na sequência dos motivos apontados nenhum critério de importância maior ou menor.

1.   O individualismo de cada cristão evangélico – No passado, quando um pastor dizia: “O mundo está entrando na igreja” todos sabiam que ele estava falando sobre vestimentas, principalmente das mulheres. E o mundo entrou por portas onde não se tinha profecias (Sempre é assim. Estamos tão preocupados em profetizar sobre algumas coisas que esquecemos de outras bem mais importantes).  Agora temos, muitas vezes, uma igreja individualista. Como é possível isto acontecer num espaço essencialmente comunitário? Não devemos ignorar as operações diabólicas nestes últimos tempos. Cada membro pensa de um jeito, sente de uma maneira, entende a partir do seu umbigo e assim se constrói um epicentro onde cada um é a referência de si mesmo. Rubens Muzio, em seu livro O DNA da Liderança Cristã está correto quando afirma: A pessoa escolhe o que quer, que mandamento seguir, que igreja frequentará, qual o batismo receber, pelos motivos que decidir e bem entender. Os cristãos saem das igrejas por que querem sair. Conheço igrejas maravilhosas que possuem tudo de bom na liderança, firmes na doutrina e mesmo assim perdem membresia. O membro acorda e pensa: Vou sair, não quero esta comunidade e sai ponto final. O que quero dizer é que por mais que possamos ser igreja com qualidade, muitos, simplesmente, por seus momentos existenciais e pela complexidade de sua família, sonhos e outras coisas decidem romper vínculos;

2.   A transição por que passa a igreja – Perguntaram a mim, em um simpósio, qual é a diferença de uma igreja pequena e grande. De maneira bem humorada respondi: “A pequena é aquela em que os membros querem muita comunhão, todos juntos; a grande é aquela que isso não é tão importante, o que é importante são os eventos, as celebrações, a massa”. Sabemos quando uma igreja é pequena ou grande quando existem estas realidades citadas (estou simplificando bem todo o conceito). Há gente que gosta de uma igreja de comunhão e outros de uma igreja com muitas “atrações”. Agora uma igreja não sai do tamanho pequeno para o grande antes de passar pelo estágio médio. Aqui está o foco de nosso pensamento. Quando a igreja passa pelo tamanho médio, muitos dos seus membros pensam se ela será resposta para o que querem. Julgam e depois decidem se vão ficar ou não. Muitos são rápidos nesta decisão, outros demoram e aí quando a igreja crescer eles saem. Estes dias estava conversando com membro de uma igreja grande que me dizia: “Pastor, a minha igreja cresce muito, ela é uma bênção! Mas agora tem gente saindo porque diz que ela está muito grande…eu não entendo!” Também converso com membros de igrejas pequenas que dizem: “Pastor, vou sair de minha igreja ela não cresce, não tem programações atraentes”.

3. O princípio da homogeneidade – Peter Wagner, autor conhecido por seus livros sobre crescimento de igrejas, elogiado por muitos e criticados por outros, trabalha o princípio da homogeneidade que, se por um lado pode causar a primeira vista um tipo de “arianismo” dentro da igreja para aqueles que o lêem desatentamente, por outro lado, na prática, o que ele descreve como princípio de homogeneidade é verdadeiro. O que vem a ser isso? Grupos homogêneos crescem mais rápidos e perdem menos membros do que grupos heterogêneos. Significa dizer que em uma igreja onde existem pessoas da mesma classe social ou faixa etária parecida ou grupos específicos, como empresários, tendem a crescer mais do que aquelas igrejas onde a mistura é grande. Uma igreja que conheço muito bem teve essa dificuldade muito acentuada. Ela fora concebida para atender a pessoas de classe média alta. Tudo foi feito, desde a arquitetura até a proposta ministerial para que isto acontecesse. Mas o que aconteceu ao longo dos anos? A pastoral começou a desafiar seus membros a evangelizarem, a realizarem missões a partir de seus próprios lugares de moradia. E a membresia fez o que foi desafiada. Evangelizaram os empregados e estes uma vez salvos, começaram a evangelizar os de sua classe. A igreja foi recebendo um novo grupo social, com características completamente diferentes da identidade em que ela foi formada, aos poucos a igreja entrou em declínio e foi perdendo membros fundadores e outros de classe média alta. Hoje ela voltou a crescer porque se redimensionou sua visão.

O fato é o seguinte: pessoas vão sair da igreja quando houver um período de transição entre a homogeneidade e a heterogeneidade. Um exemplo clássico: “Pastor,  nesta igreja não tem rapazes à altura para casar com a milha filha, são pobres, não tem carro, não tem dinheiro e etc.. Vou para uma igreja onde os membros possuem condições econômicas e sociais parecidas com a minha”. Ainda quero acrescentar outro caso, entre muitos que poderia citar: A igreja vai fazer um acampamento, por exemplo.  Os de classe média querem ir para um hotel confortável, com ar-condicionado (quem pode condená-los? Suas casas possuem conforto e quando saem querem conforto também); os pobres querem passear e apesar de também desejarem um hotel com as mesmas características da classe média, eles sabem que não têm condições financeiras para tanto e se contentam com um acampamento com bicamas. Parece aqui algo tão superficial dizer que pessoas saem de igrejas por esses motivos, mas é verdade. Elas querem estar muitas vezes com pessoas que falam a sua língua, que viajaram por onde elas viajaram e assim por diante. A questão da solidariedade entre classes me parece que fica muitas vezes em segundo plano. A sobrevivência da “raça”, “casta”,  do ”social” fica mais evidente.

4.   Os problemas familiares – Existem muitos em nossas igrejas. Tenho percebido que pessoas saem porque querem muitas coisas para a sua família e a igreja não pode, por melhor que seja, supri-las. Por exemplo: o marido quer uma igreja assim e aí a mulher vai para outra igreja. Houve um caso em meu ministério, entre muitos, assim: “Meu marido, na igreja que frequentamos, fez amizade com todos os homens da igreja – ele gosta muito da igreja, mas ainda não é salvo. Agora ele tem tanta amizade que acha até que pode ser membro da igreja sem ser salvo e batizado – na verdade ele se sente como tal. Quero vir para a sua igreja, pastor, para começar tudo de novo, quem sabe aqui, sem amizades, ele aceita a Jesus”. Eu disse: “Isto pode ser um caminho”. Ela veio para a nossa igreja e não é que ele aceitou a Jesus, se batizou e hoje é um homem abençoado em nossa comunidade? O que há de errado em uma igreja que conquista a amizade de um marido de uma irmã? Absolutamente nada, mas os problemas familiares foram envolvidos e aí….sai da frente porque entre a preservação da família e suas conquistas,  a igreja ficará sempre em xeque-mate. Outras questões que envolvem o passado. Um casal casado que quando jovens namoraram jovens da mesma igreja e tanto a mulher quanto o homem ainda possuem ciúmes e não conseguem ficar no mesmo local ou trabalharem no mesmo ministério, então saem. Problemas ligados a filhos que não se adaptam  com outras crianças, adolescentes, jovens na igreja. Seja por que motivo for, geralmente a família vai procurar outra igreja. Mulheres e homens que tem ciúme de outros homens e mulheres da igreja e aqui pode até incluir o próprio pastor. Conheci um marido de uma recém-convertida que  a proibiu de ficar na igreja simplesmente porque viu um irmão que estava recebendo as pessoas na recepção da igreja com um aperto de mão e ele achou que era um assédio. Ela saiu para evitar problemas maiores. Graças a Deus, eles voltaram, ele se converteu e hoje é da equipe de recepção, mas nem sempre isso acontece.

5.   As estações da vida – As pessoas mudam. Mudam  quanto à idade, ideais e planos. Se elas não mudam, às vezes a empresa em que elas trabalham mudam. Hoje muitos jovens, jovens casais, estão sendo transferidos para outros estados do Brasil e outros países para ficarem durante um longo período. Alguns voltam e outros ficam. Ainda há empresas que transferem as pessoas de lugares dentro da própria cidade, mas longe demais do lugar onde moram e precisam se mudar. Mudando de casa, elas mudam também de igreja. Há uma pesquisa sobre o raio geográfico que facilita o membro ficar em uma igreja ou não, que é o seguinte: a distância de sua casa ao trabalho é geralmente o cálculo que ele faz da distância de sua casa para a igreja. E se poderia dizer muito mais sobre isto, mas acho que já deu para entender.

Outra questão: os cristãos saem das igrejas porque muitas vezes compram casas em outros lugares. Isso é normal, pelo menos em grandes cidades, devido ao preço das casas e a fatos como a aposentadoria, por exemplo, quando as pessoas decidem viver em cidades do interior.

Em São Paulo, devido ao grande stress e, acredito,  em várias cidades do Brasil e mundo, as pessoas estão saído da cidade e indo para lugares calmos como condomínios no interior que não ficam tanto afastados do local de trabalho, buscam sítios para morarem e assim por diante. Isto está acontecendo inclusive com casais jovens.

O que quero dizer?  Dependendo da estação de vida de cada pessoa ou família: verão, inverno, outono e primavera,  temos realidades diferentes que necessitam de decisões diferentes e algumas delas fazem membros e não membros se afastarem de suas igrejas locais.

6.   As faces da igreja local – Não se tem como negar o fato que vivemos numa sociedade consumista e que essa mentalidade está na cabeça de cada membro da igreja. Ele quer chegar na igreja e ver todos os “produtos na prateleira” e escolhe o melhor para a sua vida e família. Certo ou errado os “produtos” que chamamos corretamente de ministérios precisam estar presentes. Um casal que tem filhos tem a preocupação de vê-los bem educados no aspecto religioso e vão para uma igreja que possui um ministério infantil que, segundo eles, é eficaz. Quando onde estão não há ou não sentem que haverá no futuro, saem e vão para outra igreja que possui. Se pudesse escolher, não ficaria numa igreja que não tivesse um trabalho com adolescentes e jovens, pois tenho duas filhas nestas faixas etárias e quero o melhor para elas. Outros querem uma igreja poderosa na intercessão e vêm isso através de símbolos. Outro dia uma pessoa me disse: “vou para uma igreja que construiu uma torre de oração, que visão!”, a minha não tinha essa torre, no máximo uma sala de oração. Torre é torre, sala é sala e ela foi embora.

7.   Liderança que não se capacita – A leitura hermenêutica da vida por parte dos pastores e da liderança traz membros ou manda-os para fora. Há lideres que tem problemas com o trabalho feminino, outros com pessoas de liderança forte e etc. Líderes que colocaram uma coisa na cabeça e não mudam. Acham que são os verdadeiros e únicos oráculos de Deus na face da terra. São Messias do Reino de Deus. É impossível ficar numa igreja assim. Todos têm que pensar como ele. Antigamente,  isso podia funcionar, mas hoje as crianças,  já na educação infantil, aprendem a questionar. Nós líderes trabalhamos com essa geração e para isso precisamos nos capacitar. Temos que trocar nossas lentes para vermos melhor. Alguém já disse criar uma igreja é relativamente fácil; o difícil é manter a membresia e para isso precisa de muita capacitação. A capacitação funciona como uma espécie de vela num veleiro. O Espírito Santo sopra o vento para onde quer e a vela é o instrumento para que o barco siga em sua direção.

8.   A existência de várias igrejas – Cresci em tempos que havia poucas igrejas. Quando se tinha um problema na igreja, mesmo assim ficávamos porque não havia outra maneira. Hoje tudo mudou. Se alguém tem um problema com a liderança ou com membros na própria igreja, vai tranquilamente, às vezes até sofrendo, mas vão. E não que vão para uma igreja pior do que a nossa, apesar disso acontecer também, mas vão para igrejas muito boas e continuam sua vida cristã normalmente. Tem igrejas de todos os tamanhos e com todo tipo de propostas. Aqui em São Paulo há uma igreja que está com um ministério de luta livre. Os jovens, em nome de Deus, podem bater uns nos outros, até mesmos os pastores poderão, quem sabe, descontar seus desafetos nos membros no ringue cristão. Há igrejas para pobres, para ricos, para milionários; há igrejas de cavernas (exilados, endividados, fracos); há igrejas de homossexuais, heterossexuais e bissexuais; há igrejas de alcoólicos onde os membros são pessoas convertidas mais que ainda estão vencendo o vício do álcool e quando essas vencem é dado a elas carta de transferência para as igrejas dos sóbrios. Que fazer?

9.   Satanás – Satanás tira pessoas das igrejas. Não devemos esquecer que nossa luta não é contra a carne e sangue, mas contra ele e suas hostis. Cristãos que dão brechas para ele atuar em suas vidas, são propensos a saírem de suas igrejas. Não precisa de um motivo, somente uma flecha maligna muda o pensamento e torna esse obstruído a Palavra de Deus e num passe de mágica rompe vínculos como que enfeitiçados pelas promessas malignas. Recebo muitos membros de outras igrejas em vários casos quando pergunto o porquê saíram de suas igrejas a resposta é: “não sei pastor o que deu em minha cabeça”. Na verdade, o que deu na cabeça foi um dardo inflamável do maligno que torceu fatos, desvirtuou pensamentos e ações, retirou o amor, a amizade, anos de companheirismo do coração da pessoa, construir uma fortaleza que impediu a pessoa a sair dela mesma e ver o que estava acontecendo em sua vida. Satanás vem roubar, matar e destruir e ele quer fazer isso e faz na vida de vários príncipes e princesas do povo de Deus.

10.   Outros interesses – Quando recebo alguém no gabinete para dizer que está saindo da igreja muitas vezes, creio ter o dom do discernimento, se não tenho pelo menos os anos e trabalho me deram um certo traquejo,  fico pensando que o motivo que  está me dizendo como sendo o motivo para a sua saída não tem nada de real. É um discurso hipócrita que, às vezes, nem mesmo a pessoa consegue identificá-lo. Quero dar um exemplo: Uma moça me procurou para dizer que estava indo para outra igreja. O motivo: a igreja é grande e quero ter comunhão. O real motivo: sozinha, com mais de 35 anos, viu nesta outra igreja possibilidades de casamento,  O que dizer? Ela quer se casar. Às vezes o motivo é que na outra igreja receberá um título para exercer o seu poder entre as pessoas ou até mesmo receberá remuneração pelo seu serviço. São muitos os interesses escusos, alguns justos e outros imorais.

11.        Falta da Palavra de Deus – Não estou pensando aqui em doutrina, apesar disto ser necessário para a igreja, mas numa mensagem bíblica para os cristãos que realmente chegue a mente e ao coração para mudar a vontade. Tenho visto muitos esboços de sermões e tenho ouvido outros tantos. Lindos na forma, mas não faz o povo rir e chorar ,se arrepender, se humilhar , que não não geram fé. A fé vem pelo ouvir da Palavra de Deus e quantos realmente pregam a Palavra de Deus? Pregam filosofia, sua visão de mundo, seus recalques, frustrações. Vomitam suas mágoas e colocam jugo sobre o povo. O povo fica sem fé. Sem fé eles vão a outros lugares para buscarem e acabam ficando por lá. Certo ou errado é assim que as coisas acontecem.

 12.        Há igrejas ruins – Pode parecer algo terrível para se dizer. Mas o fato é que nenhuma igreja é tão boa e tão ruim, mas conseguimos algumas que pelo menos ficam na média. Agora temos que admitir que há igrejas que parecem que o inferno tomou conta. É só briga, confusão, disputa pelo poder, hierarquia e etc…  Participei de igrejas que até cadeirada saiu, de membros que se atracaram uns com os outros. Soube de uma igreja que os idosos chamaram a polícia para os jovens da igreja não entrarem no templo. Membros que são preconceituosos, ríspidos, ruins mesmo (não sei como isso pode acontecer, mas parecem com Caim o tempo todo), igrejas legalistas onde não pode nada; igrejas libertinas, onde se pode tudo; igrejas que os cultos são completamente desorganizados; igrejas que se parecem um cemitério; outras uma casa de shows; pessoas que levam a sério a vida cristã e querem crescer não ficam em igrejas assim.

13.        Crentes carnais – Há muitos. Que não pensam no Reino e no desenvolvimento de sua igreja. Muitos saem quando sua igreja vai construir e porque não querem contribuir financeiramente; outros porque a igreja está colocando limites de santidade e não querem isso para as suas vidas. Preferem igrejas onde ninguém coloca o dedo na ferida, É a geração paz e amor, uma reedição dos hippies. Ainda há os que saem porque a mente é carnal no sentido de exercerem poder. Muitas querem o poder em suas mãos e quando a igreja vai crescendo, muitos vão chegando, e desconhecem a história da igreja e por isso mesmo não estão nem aí com os que possuem o poder em suas mãos. Os detentores de poder não suportam passarem seus dias desapercebidos e quando chegam a conclusão que não poderão fazer mais o que gostariam, sempre saem da igreja.

14.        Joio no meio do trigo – Bem não compete julgarmos e nem peneiramos, mas o fato é que eles existem. O joio vai sair em algum momento da igreja e seria tão bom se todos saíssem, mas o fato é que as coisas não são como queremos. Creio que,  com o aumento rápido dos evangélicos em nosso país,  está crescendo também os crentes nominais que embora se dizem cristãos realmente não passaram por uma experiência legítima de conversão. Por isso, quando o padrão do evangelho é requerido na igreja local por parte dos membros, eles saem porque não são nascido de novo e não podem entender as coisas espirituais.

15. Luta por poder – Lidar com o poder é um grande desafio para todos nó,s independente do tempo que temos de ministério ou da nossa personalidade. No livro de Tom Marshal: Understanding Leadership (Entendendo a Liderança) encontramos um comentário interessante sobre a questão do poder. Ele diz:: um líder servo está pronto a repartir poder com outros para que possam ser capacitados, isto é, para que se tornem livres, mais autônomos, mais capazes e, portanto, mais poderosos. É claro que entre a teoria e a prática as coisas nem sempre acontecem como deveriam acontecer.

Tenho observado líderes que lutam por poder e, exatamente por isso,  não capacitam ninguém e quando encontram pessoas capacitadas as desprezam. Pessoas desprezadas saem de igrejas.

Alguém me disse, certa vez,  que o poder deve ser um tapete sobre nossos pés e nunca um casaco que cobre nosso corpo. Quando o poder é um casaco,  ouvimos: quem manda aqui sou eu e ponto final.  Isto pode acontecer em duas vias: tanto por parte da liderança como dos liderado e que entristece profundamente o Espírito Santo de Deus. Luta por poder se traduz em quem é mais espiritual, quem é o oráculo maior de Deus entre toda a comunidade e quem pode todas as coisas. Essa realidade tem feito muitos se afastarem da igreja  porque querem servir a Deus com seus dons e talentos e não encontram espaço no meio do campo de guerra pelo domínio do poder para realizarem seu serviço.

16 – Relacionamentos entre as pessoas da igreja – Moro em São Paulo. Aqui quase não olhamos nos olhos uns dos outros nas ruas e avenidas da cidade. Quando vou para cidades do interior acho esquisito as pessoas olharem nos olhos.  Na verdade,  a sociedade urbana tem perdido a beleza de olhar para cima, os céus, para a frente. O olhar está voltado para baixo e talvez seja por isso que as pessoas estão tão sós.

Relacionamento pressupõe olhares. Olhar para o outro é o primeiro passo. Às vezes fico na recepção de minha igreja, que graças a Deus, tem sido abençoada, mas vejo pessoas que chegam e não cumprimentam ninguém, entram, sentam, cantam, oram, ouvem a Palavra de Deus e vão embora. É como que estivessem desplugadas do outro e ligadas somente a elas mesmas. Isto é um enorme problema. Ser igreja pressupõe ser relacionamentos. As pessoas esperam isso de uma igreja e quando não há,  pelo menos o mínimo esperado, saem para outra igreja buscando desesperadamente algum tipo de contato humano.

Tenho o costume de dizer para algumas mulheres: Querida, seja bem vinda. Um dia uma senhora me disse: pastor, sabe por que estou nesta igreja? Eu pensei ela vai falar que está na igreja por causa do louvor, que é maravilhoso, ou da Palavra, mas me surpreendi com suas palavras: Estou nesta igreja porque ninguém me chama de querida, só o senhor e me sinto amada aqui por isso!.

Pessoas saem da igreja quando há problemas de relacionamentos e aqui nem estou pensando em problemas de grosserias, falta de educação, gente estúpida, mas em contatos que demonstrem que a pessoa é importante naquele lugar.

17 – Expectativas frustradas – Em minha classe de estudo bíblico sempre pergunto: O que é uma igreja? As respostas são variadas, mas sempre alguém me diz: A igreja é o céu na terra, pastor.  Geralmente quem diz isso é novo convertido! Tenho um amigo que diz que ele desenvolveu uma técnica para continuar acreditando na igreja de Cristo: “Sabe, Fernando, eu vou para a igreja pensando que ela é um pedaço do inferno e aí qualquer ação das pessoas que demonstre que realmente são seguidoras de Cristo eu me surpreendo e digo: ‘Nossa não é que a igreja é um pedaço do céu?” Não posso dizer que concordo com esse posicionamento, mas o fato é que ele está usando uma estratégia de diminuir sua expectativa quanto a igreja para sua própria sobrevivência.

Há pessoas que vão construindo uma igreja imaginária que nunca será real e isso muitas vezes até por comparação com a igreja do primeiro século. Quando as coisas não saem como elas imaginam se frustram e saem da igreja. Um jovem que não tinha pai e mãe criou em sua mente a absoluta certeza de que a igreja supriria essa falta. É claro que isso nunca aconteceu. Igreja é igreja, uma comunidade que tem como um dos objetivos ser terapêutica, mas nunca ser família nuclear. O jovem saiu da igreja e foi buscar outra e hoje sabe lá por onde anda porque tenho convicção que ele ainda não achou o que imagina existir.

Outros vêm de igrejas onde experimentaram problemas com irmãos e líderes e acham que na igreja onde desejam ser membros as coisas vão ser bem diferentes. Ainda que isso possa acontecer, as igrejas são muito parecidas e, certamente, ela terá problemas. Geralmente pessoas feridas que chegam em nossas igrejas com muitos traumas e com uma expectativa alta de cura, em um médio tempo vão sair novamente da igreja.

18 – Exigências disciplinares – Outras pessoas saem da igreja porque não querem ser disciplinadas. Tanto faz a disciplina como ato de amor ou como punição. Nossa geração não aceita ambas. Talvez essa seja a maior lutar que a igreja tem que enfrentar em seu lidar diário. Muitos querem fazer o que querem, a hora que desejam e não aceitam qualquer tipo de orientação ou de ação de correção. Soube de um amigo que em sua igreja uma moça queria viver com um rapaz sem se casar e queria que a igreja aceitasse tal situação e até cedesse o espaço para o seu chá de cozinha. Quando ele ficou sabendo a chamou para uma conversa e simplesmente ela não aceitou que a igreja a disciplinasse e nem proibisse a realização do seu evento. Não sei o que você acha disto, mas creio que ele agiu corretamente. Ela saiu da igreja e foi para outra que aceitou suas exigências.

O fato é que se os líderes trabalham santidade na vida da igreja os problemas são muitos. Estou aqui pensando num trabalho responsável e correto. Mesmo assim haverá gente que não ficará na igreja simplesmente porque não quer seguir as exigências de uma vida santa. Querem uma igreja mais light em que cada um cuide de sua própria vida e deixa a sua de lado.

Uma vez fiz em minha igreja a seguinte restrição disciplinar: só pode cantar no grupo musical  quem for dizimista porque eles cantam no momento de dízimo  e precisam ter autoridade para a ministração. Alguns entenderam perfeitamente, mas outros saíram da igreja porque isso era legalismo.

19 – Pecado não confessado.  Pecado não confessado e constante tira a força do discípulo de Cristo. Tirando a força, a pessoa transfere suas frustrações e fraquezas culpando a liderança e a própria igreja. Ouvimos: essa igreja não é espiritual, as mensagens não falam comigo e assim por diante. Eles acabam por saírem da igreja porque, enquanto estão expiando suas culpas num processo de transferência para o outro,  não estão se percebendo como pecadores e esfriam sua fé completamente.

Fui procurado uma vez por uma jovem que dizia que um jovem estava ligando para sua casa e falando palavras obcenas para ela. Ela gravou e me trouxe a fita. Chamei o rapaz e, antes de apresentar a fita,  perguntei se ele tinha feito o que a jovem me falou . Ele afirmou que era coisa do Diabo e que nunca tinha feito isso. Liguei o gravador e mostrei a ele a sua própria voz. Esperava que ele, diante de um fato incontestável, me confessasse o seu pecado, mas ele disse que a voz não era dele e que Satanás era expert em imitar vozes.  Depois disto sumiu da igreja.

20 – Enriquecimento – Quando as pessoas começam a melhorar de vida elas também podem mudar de igreja. Elas compram casas, carros e tantas coisas mais e se aprisionam nos próprios bens,  advindos da riqueza. Já não têm mais tempo para estarem numa igreja local.

Conheço um empresário que contrata uma profetiza para orar por ele toda semana porque ele não tem tempo de ir mais numa igreja. Também outros compram muitos CDs e DVDs de mensagens em suas casas, isto para não falar da igreja da internet que tem crescido muito.

Um outro fator tem a ver com a realidade que acompanha as pessoas que possuem situação financeira privilegiada. Quando estive certa ocasião no Chile li um livro, infelizmente, não me lembro do nome do autor, chamado e Ricos e Camelos. As autoras, que trabalharam muitos anos com ricos, esclarecem sobre o trabalho especial que essa classe de crentes necessita ter. Eles são diferentes das ovelhas, são camelos e aí elas traçam paralelos de como uma ovelha age e um camelo age querendo mostrar que os métodos de pastoreio e de liderança precisam ser diferentes. Na maioria das vezes lideramos todos como ovelhas e aí vamos perder os ‘camelos’.

O fato é que com o dinheiro vem uma maior mobilidade das pessoas e as opções acompanham esses que podem ir e vir a qualquer lugar, deixando sua igreja e indo para outras.

21 – Incapacidade de ser feliz – Há muita gente infeliz. Não tem a alegria de ser feliz e nem se quer de experimentar alguns momentos de felicidade, mesmo os salvos em Cristo Jesus por mais absurdo que possa soar esta constatação aos nossos ouvidos. Elas andam de igreja em igreja buscando desesperadamente a felicidade. A felicidade se torna um produto de consumo essencial como o feijão e arroz em nosso cardápio brasileiro o são. Simplesmente, elas não conseguem relacionamentos que criem vínculos de afetividade porque não possuem dentro de si nada de material que produza pontes de afetos. São tristes, reclamam de tudo e são acusadoras.

Conheci uma pessoa assim em meu primeiro ministério pastoral. Não havia absolutamente nada que eu ou outras pessoas fizessem que a deixasse feliz; ao contrário, ela entendia tudo errado.

Pessoas que são incapazes de ser felizes saem para buscar felicidade como o beija-flor sai em busca do néctar, com uma diferença: o pássaro acha e se satisfaz, mas essas se perdem.

22 – Incapacidade de vínculos permanentes – É desejo de Deus que sejamos um, vivendo num só propósito e num só coração!  Se atentarmos para a composição de uma corda, percebemos que a mesma não é feita de um único fio, mas de várias delicadas fibras, as quais se romperiam se tentássemos amarrar alguma coisa com elas.

Encontraremos também em nossas comunidades semelhantes unidades presentes entre as fibras de uma corda. Somos em geral como estas “fibras” que compõem uma grande “corda”, a qual se dispõe em realizar seu propósito e missão, isto é, sustentar, socorrer ou servir como extensão de nossos braços a quem poderia vir necessitar de socorro ou especial atenção.

No entanto, há pessoas que não conseguem ter vínculo permanente com nada na vida. Não é uma questão apenas da igreja, mas algo que permeia todos os seus relacionamentos. Talvez sejam problemas com traumas, afetividade na infância, decepções, individualismo, neuroses, doenças psíquicas ou outros fatores. O fato é que muitos não ficam em nossas igrejas porque não querem comunhão, estar junto, dar satisfação de sua vida mesmo que seja mínima.

Conversando com uma moça ela me disse: Fui para uma igreja que eles eram maravilhosos. Tinha pequenos grupos e lá eles ajudavam a todos até mesmo com indicação de trabalho secular. Acho que se estivesse com eles hoje estaria bem melhor em termos emocionais e empregatício. Então eu a perguntei: Por que você não ficou com eles?  Ela me respondeu: Não queria muito a aproximação de pessoas ao meu lado, gosto de ser livre!. É incrível não é essa resposta? Incapaz de criar vínculos permanentes, anda de galho em galho até que um dia descobrirá que a velhice está chegando e se está só na vida. Que tristeza!

23 – Comparações – Num mundo de competitividade a comparação aparece com força elevada. Os frequentadores e membros da igreja estão continuamente comparando programações, ações, atitudes, líderes, pastores de suas igrejas com as demais igrejas, tanto de sua denominação como a de outras denominações. Apesar de cada igreja ter sua própria face, hoje as pessoas querem a face da outra em sua própria face, tornando a igreja local um rosto com várias faces. Não seria problema se essas faces viessem por ministérios criados de forma contextual da própria igreja para servir as pessoas.  Mas não é assim que as coisas andam. Uma irmã certa vez me disse: Estou saindo desta igreja porque a que estou indo agora, há poucos domingos, o pastor tem missões no sangue. Ele fez um apelo nesta área e senti que Deus estava me chamando para ser missionária urbana.  A igreja à qual a irmã estava se referindo realmente só pensa em missões,  e só.  Certa vez li um livro para casais intitulado: O Mito da Grama Mais Verde. O autor diz que há um mito nos EUA em que a grama do vizinho sempre é mais verde do que a nossa. E creio que quando há comparações de ministérios e igrejas locais é exatamente isso que acontece. Assim o membro sai da igreja local e vai para aquela que ele acha que é ótima em detrimento daquela que é simplesmente boa. É claro que daqui a pouco, se continuar com o sistema de comparação, é capaz desta mesma pessoa voltar para a sua antiga igreja ou ir para outra ainda, segunda ela, melhor.

24 – Não creem mais em igreja – O Diabo, com seus demônios, tem cegado muita gente boa. Há muitos no mundo que não creem mais em igreja local. Existe até um ministério forte nos EUA e em alguns países da Europa para os que se tem chamado de desigrejados. Há métodos para eles: já que não crêem mais na igreja local cada crente poderá ser o pastor de seu próprio rebanho que é a sua família. Parece absurdo, não? Mas as coisas estão caminhando assim. São vários motivos que levam uma pessoa a não crer mais na igreja local. Só para citar alguns: o isolamento, a falta de afetividade, decepção, orgulho ferido, escândalos na igreja, a transformação da igreja em uma espécie de “clube social”, dificuldade de obediência e estar sob autoridade, a falta de espiritualidade e o próprio poder que muitas vezes é usado para o massacre de vidas. Quando alguém não crê mais no corpo de Cristo local esse sai e vai tentar viver a sua fé sozinha, o que é uma lástima porque ninguém consegue ter vida espiritual adequada aos padrões de Deus fora da igreja local.

25 – Por questões doutrinárias – Ainda que muitos hoje não estejam interessados em doutrina bíblica na igreja local, estão nas igrejas por outros diversos motivos, alguns ainda saem dessas porque o que crêem doutrinariamente está sendo mudado pela liderança local. Soube de um pastor que de púlpito fica ridicularizando sua denominação, falando das doutrinas ridículas que ainda existem. Ora certamente haverá divisão nesta igreja. Crentes maduros são crentes que trilharam uma história doutrinária. São batistas, metodistas, presbiterianos e etc, não porque alguém disse para eles serem, são porque crêem nas doutrinas pregadas por elas

26 – Porque Deus manda embora – Você pode pensar: o autor está louco em afirmar que Deus manda embora alguém de uma igreja local? Mas nestes anos de pastorado tenho visto isso nitidamente. Pessoas que só vem para atrapalhar a obra da igreja: falam mal, perturbam o ambiente, criam confusões, são problemas literalmente. A igreja não cresce porque sempre elas puxam ao contrário. A língua tem um poder tamanho nestas vidas e a igreja se sente enfraquecida e perturbada. Se fosse no AT,  Deus poderia matar um sujeito assim, mas agora, na época da graça, ele manda embora desta igreja e a leva para outra (cuidada da outra), pelo menos para dividir a carga um pouco ou até mesmo para que em outro ambiente ela possa ser curada da síndrome de Alexandre, o Latoeiro. Por isso não devemos ficar tristes nestes casos, devemos agradecer a compaixão de Deus usada em nossa direção e de nosso ministério na igreja local. Devemos dar glórias a Deus.

27 – Falta de paciência para esperar para trabalhar – Tem pessoas que possuem bicho carpinteiro. Não gostam de ficar paradas. Possuem a síndrome de Marta e não suportam estar como Maria aos pés de Jesus.       Querem trabalhar. Apesar do conceito pastoral hoje estar bem mudado em relação ao passado quando uma pessoa para trabalhar na igreja precisava passar por um longo processo de confiabilidade de vida cristã, ainda não dá para um líder maduro colocar de uma hora para outra uma pessoa que não conhece para liderar alguma área da igreja local. É preciso tempo e discernimento para que isto aconteça. Paciência é um fruto do Espírito que poucos têm porque não estão interessados em serem forjados à semelhança de Jesus Cristo.  Há outros interesses em jogo, como por exemplo, o poder de estarem a frente de uma organização ou ministério. Agora, há igrejas que estão quase colocando placas na frente de seus templos: Procura-se obreiros para trabalharem na obra do Mestre. Sendo assim,  membros saem de igrejas locais para trabalharem nestes mercados espirituais que oferecem até carteira profissional assinada.

28 – Críticas – Sempre ouvi: “Só se joga pedras em árvores que dão frutos”. Mas venhamos e convenhamos, não é fácil sobreviver à críticas, sejam elas positivas ou negativas. Precisa-se muita maturidade para receber as que são boas, imagine as que vêm para nos destruir? Críticas estiveram, estão e sempre estarão na vida daqueles que trabalham para Jesus. Há pessoas que conseguem sobreviver a elas, outras não, e por isso saem de suas igrejas locais porque estão cansadas de sofrerem, magoadas e até iradas com o irmão, liderança, sabe Deus com quem mais. É por isso que, às vezes,  crentes de muitos anos saem da igreja. Quanto mais anos mais acúmulo de criticas e, de repente, decidem romper o vínculo de sofrimento e vão para uma nova igreja onde vão começar tudo de novo.

29 – Tomar as dores de outras pessoasNão seja recheio de sanduíche, é um conselho que sempre recebi e sempre dou a muitas pessoas. Algumas pessoas deixam o convívio da igreja local que pertencem porque tomam lutas que não são as suas. Isso acontece com líderes e liderados. Certa vez, conversando com um casal que estava com problemas com um dos nossos pastores, perguntei, mas o que ele realmente fez para vocês? Eles pararam, pensaram e me responderam: Com a gente nada, mas com o nosso amigo fez muitas coisas.  Realmente é muito difícil não tomarmos a dor de uma pessoa querida, mesmo porque a Palavra de Deus nos manda sermos solidários uns com os outros, mas temos que tomar muito cuidado para não nos prejudicarmos enquanto o outro a quem defendemos já resolveu o problema com o seu agressor ou não tem nenhuma dificuldade de continuar na igreja mesmo com a solução não alcançada. Pessoas saem quando não permitem que os que tem problemas os  resolvam por si mesmas e aí se entristecem e não conseguem mais ter comunhão com o líder ou com alguém na igreja preferindo ir para outra.

30 – A pessoa nunca se viu como membro de uma igreja local – Assim como há pessoas que se vêm como membros da igreja local e não são – em minha igreja tiramos foto de todos membros da igreja para questões de informatização do rol de membros e constatamos que muitos que tiraram a foto não entraram pela assembleia da igreja, logo não são membros, mas se acham como tal-  muitos que são não se sentem assim. Acredito que, em parte, são pessoas que vieram de outros ministérios em que não se tem um sistema de membresia como as igrejas históricas e por isso agem assim. Para a pessoa que não se vê como membro,  qualquer coisa é motivo para que ela saia da igreja. Não havendo vínculo administrativo,  na hora dos problemas é fácil ir embora. A coisa funciona mais ou menos como um casal que é casado civilmente e outro que não é. Quando surgem os problemas,  o papel muitas vezes faz com que o casal pense dez vezes antes de se separar, o que geralmente não acontece com os que estão apenas juntos mesmo com a lei atual brasileira,  reconhecendo o casamento pelos anos de convivência.

31 – As pessoas morrem – Estranhei um dia quando um membro de minha igreja ficou surpreso e indignado quando, ao me perguntar porque o nome de seu pai não constava no rol de membros, e eu lhe disse que ele tinha saído porque faleceu. Mas meu pai foi membro fundador daqui, ele retrucou.  Eu tive que ter muita paciência para fazê-lo entender que o rol da igreja é de pessoas vivas aqui na terra. O fato é que assim como há em toda igreja um crescimento que chamamos biológico, também há perdas porque as pessoas morrem. Igrejas que não se renovam com uma membresia jovem têm a tendência, pelo menos pela naturalidade do ciclo de vida, de perderem mais pessoas e por isso diminuírem quanto o número de membros. Em decorrência da morte, perdemos muitas vezes os parentes do falecido porque a vida se modifica incluindo novas moradias, aspectos financeiros e outros conforme abordados neste capítulo.

32 – Novos desafios, ministérios – Alguns outros membros saem porque o Senhor designa outros desafios e ministérios e eles querem andar em acordo com a vontade divina. Na verdade, achamos que quando alguém sai é porque tem um problema não resolvido. É claro que isso pode acontecer, mas pessoas também vão para outra igreja porque Deus, que é o Senhor da obra, manda sair e atuar em outro local. Isto,  por exemplo, acontece não somente com os pastores, ministros de música, ministros de educação cristã, mas com o povo. Agora é verdade que algumas pessoas colocam o motivo da saída sempre na vontade de Deus. Estou cansado de receber pessoas que se escondem atrás da frase: Deus está me chamando para um outro ministério, e eu sei que não é nada disso, é apenas uma desculpa. No entanto, essas experiências não invalidam aqueles que, com sinceridade, vão atuar com seus dons e ministérios em outros locais do Reino de Deus.

33 – Promessas não cumpridas – Muitos obreiros fazem promessas para seus membros que não podem ser cumpridas ou ao longo do processo ocorrem situações que ficam fora do controle do planejamento e acabam por não serem executadas. Certa ocasião, fui na posse de um ministro de música em uma igreja de nossa denominação. Quando passaram a palavra para ele dar suas primeiras palavras ao auditório ele fez tantas promessas para os músicos que fiquei pensando como ele que chegou naquele momento podia prometer tantas coisas se não conhecia a igreja para tanto. Isto é uma atitude louca. Obreiros experientes não falam muito na chegada porque deixam o povo perceber para que eles vieram.  O que aconteceu? Ao passar de um ano, alguns músicos acabaram por saír da igreja porque tinham uma alta expectativa que não foi alcançada. E assim acontece em várias áreas da igreja. O pastor ou líder promete que vai abrir um ponto de pregação, um novo ministério e as pessoas envolvidas ficam aguardando. Por diversos motivos nada acontece e as pessoas vão para outro ministério em outra igreja para realizarem aquilo que Deus colocou em seus corações.

34 – Vergonha – Um pecado que vem á tona, seja da pessoa ou de alguém de sua família, sempre traz constrangimento para a própria pessoa e para a família, a não ser que não sejam verdadeiros cristãos. Realmente é difícil continuar na igreja quando o pecado, pelo menos em nível social, é grave. Há muitos comentários, mesmo quando a igreja tem uma postura não julgadora. Às vezes a pessoa precisa deixar suas funções e ficará exposta por isso. Constrangida, ela prefere sair para outro lugar onde pode começar tudo de novo sem que as pessoas a conheçam. Conheci um membro que engravidou uma moça da própria igreja. Chegou ao meu conhecimento e tratei da melhor forma bíblica. Os pais ficaram tão envergonhados que depois de algum tempo, por não terem assimilado o fato e por serem muito corretos, acabaram saindo de nossa igreja e foram para outra que nem conhecia seu filho, portanto não tinham conhecimento do ocorrido. Outra experiência que posso contar é de uma mulher que falava mal de todas as pessoas e acusava muitos de pecado até o dia que sua filha errou.  A vergonha dessa mãe foi tão grande que ela saiu imediatamente da igreja. Meu amigo me disse que foi a uma igreja em que um pastor bem conservador que tinha acabado de assumido o ministério há pouco tempo. Quando ele estava pregando, uma  pessoa disse glória a Deus bem alto. Ele parou ,olhou para o irmão e disse: Você está louco! Aqui não.  A pessoa começou a chorar no banco envergonhado e não voltou mais a sua querida igreja.

35 – Não sabem trabalhar em lugares de paz – Aqui é um ponto interessante. Há pessoas que vieram de igrejas onde sempre trabalharam em oposição a liderança. Isso funcionava como uma “droga” que aumentava a adrenalina de suas vidas e fazia com que fossem ativas na casa de Deus. A rebeldia era a força motriz para realizar as ações para o Senhor. Aí vão para outra igreja onde não há esse tipo de jogo – o trabalho por peleja ou rebelião, há paz entre líderes e liderança, entre bastidores e palco. Tudo deveria ser maravilhoso, você não acha? Eu pelo menos gostaria sempre de trabalhar em um ambiente de paz, de amor, de cooperatividade, de complementaridade. Mas para alguns isso não funciona. Eles foram treinados no ambiente de peleja e não conseguem ficar num ambiente de paz e por isso saem.

36 – Problemas físicos e de saúde – As questões que envolvem nosso físico e a nossa saúde também contribuem para estarmos numa igreja ou não estarmos nela. Por exemplo, a pessoa não pode andar e a sua igreja está no segundo pavimento ou é de escadas ou não tem rampas, como a pessoa continuará nesta igreja? Pessoas com problemas de coluna e suas igrejas possuem bancos ou cadeiras desconfortáveis, pessoas que tomam diurético e os cultos da igreja são longos ou não possuem banheiros perto do santuário. Ainda: pessoas portadoras de necessidades especiais tais como: deficiência auditiva, cegueira, síndromes precisam de cuidados especiais, ministérios especiais e a parte arquitetônica do templo adaptável às suas necessidades. Quando isso não acontece é só uma questão de tempo, elas vão sair. Saíram para outra igreja ou simplesmente vão ficar em casa. Igrejas onde se tem um número expressivo de pessoas caminhando para a terceira idade precisam se adaptar porque, caso contrário, vão perder seus membros nesta fase de suas vidas.

37 – São mandadas embora – Aqui estou pensando em funcionários da igreja e pessoas que trabalham em ministério remuneradas. É quase impossível quando essas são dispensadas pela direção, continuarem na igreja que fazem parte. Quando o processo parte do próprio funcionário ou ministro as coisas podem até continuarem da mesma forma, mas quando a tomada de decisão vem via administração mesmo quando não se tem conflitos, a pessoa quer ir para outro lugar e isso é perfeitamente compreensível.

38 – A família fala muito mal da igreja – Bem, tenho um amigo que diz: muitas famílias comem o pastor na hora do almoço de domingo. Se isso é verdade a minha orelha fica vermelha não à toa. Tem muita gente que a língua é muito afiada. Fala mal de tudo, critica tudo e a coisa fica pior quando isso é feito pelos pais na presença de seus filhos. Tenho observado que os pais ficam na igreja, mas os filhos acabam saindo. Quem vai ficar numa igreja onde tudo é ruim? As pessoas querem ter orgulho de onde estão; querem ter satisfação de falar do seu líder e dos diversos ministérios de sua igreja. Quando a família liderada pelos pais, tios, avós, se unem e acabam com tudo o que se tem na casa de Deus isso vai ao longo dos anos criando uma ojeriza pela igreja local e aí os filhos quando podem se libertar de seus pais decidem ir para outra igreja onde possam viver plenamente o evangelho. Conheci um caso de uma família que um dos irmãos gostava do pastor e outro odiava. Nunca esse irmão podia elogiar o pastor e trabalhar com ele, pois o seu irmão colocava defeito em tudo. Até que um dia o que estava com o pastor desanimou e para acabar com os problemas com o seu irmão saiu da igreja.

39 – São despedidos da igreja – Há membros que saem da igreja porque, literalmente, seus lideres pedem para que eles saem. Eu mesmo passei essa experiência quando era seminarista em minha igreja local. Trabalha muito e conduzia, entre vários ministérios, o ministério de teatro. O pastor saiu e o que veio era contra teatro na igreja, isto é, apresentar peças no lugar onde ficava o púlpito. Ele queria que apresentássemos somente no salão social. Eu não aceitei e depois de muito desgaste ele me chamou em seu gabinete. Eu pensei que ele iria mudar seu conceito e até me pedir perdão, mas isso definitivamente não aconteceu. Ele me disse: Fernando, gostaria que você saísse dessa igreja. Não quero mais você aqui. E eu saí. Enquanto ele pastoreou aquela igreja nunca mais voltei lá. Depois de muitos tempo nos encontramos e ele me pediu perdão e eu o perdoei. Mas foi muito chocante para mim ouvir de um pastor as palavras que ouvi. Sendo assim alguns saem da igreja porque são explicitamente mandadas embora.

40 – Problemas que envolvem cultura – Talvez este não seja um motivo de saída presente na igreja brasileira, mas com certeza tem sido um motivo para a saída de várias pessoas que estão em outros países, por exemplo nas  igrejas constituídas de imigrantes brasileiros que têm seus filhos nascidos na Pátria onde moram. Deixe-me explicar um pouco mais sobre isso. As igrejas brasileiras se tornam um gueto em outros países, o que é perfeitamente compreensível devido à preservação da cultura em meio à outra cultura. Mas o fato é que os filhos dos imigrantes nascidos no país onde moram, são brasileiros porque vieram de famílias brasileiras, mas são criados na cultura de onde moram. Por exemplo: crianças nascidas nos EUA. São americanas e brasileiras. Eu diria mais americanas do que brasileiras. Por que? Porque vão mergulhar na cultura americana a partir da convivência nas escolas. Sendo assim, quando essas crianças se tornam adolescentes e jovens,  muitas vezes saem da igreja brasileira para a americana onde está a sua cultura e se sentem plenos. Outro caso é o fato de jovens e adultos namorarem outras pessoas de outras culturas, por exemplo, latinos, asiáticos e às vezes saem de suas igrejas para irem para as igrejas de seus namorados e cônjuges.

41 – Igrejas morrem – Sempre pensei quando era jovem que uma igreja nunca fecharia suas portas. Interpretava o versículo que diz que as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja de Cristo, como se o inferno não pudesse fechar uma igreja local.  Depois entendi que esse versículo tem a ver com a igreja universal do Senhor. Igrejas fecham as portas. Morrem. Uma das coisas mais chocantes para mim quando comecei a viajar para a Europa foi ver isso na realidade. Igrejas que hoje se paga para entrar porque se tornaram museus, como na Escócia, por exemplo. Igrejas que fizeram história de Missões no mundo, hoje são verdadeiros mausoléus. Aqui no Brasil muitas abrem e muitas fecham. Onde moro mesmo há uma avenida que tem muitas igrejas, muitas mesmo. A cada três meses surge uma e fecha outra. As pessoas vão embora quando suas igrejas morrem. Isto é um fato. 

42 – Formação de novas igrejas – Há sistemas eclesiásticos, como o da denominação Batista, que uma vez que uma congregação atinge certa maturidade e já tem condições de ser institucionalmente uma igreja é organizada como tal. No ato da organização é passado o rol de membros dos que estarão na nova igreja como membros fundadores. Sendo assim,  por questões administrativas e de organização,  a igreja organizadora perde os seus membros. Na igreja que sou pastor já organizamos ao longo de alguns anos,  seis igrejas e em todas esses momentos perdermos membros. Foram muitos que, se estivessem em nossa igreja ainda fariam de nós uma igreja ainda maior em termos numéricos.

43 – Perigo –Pessoas saem da igreja em situações de perigo. Há igrejas que estão em lugares que vão se tornando muito perigosos.. Também há questões que envolvem seguridade no lugar onde o povo se reúne. Por exemplo, houve aqui em São Paulo uma igreja que caiu o telhado causando vítimas. Em outra igreja um assaltante entrou na hora do culto e foi até o pastor colocando uma faca em seu pescoço dizendo que iria matá-lo e que todos os presentes precisavam colocar tudo na caixa para ele levar embora. Depois disso sempre haverá os que vão sair, se não for o próprio pastor.  Não tenho conhecimento de nenhuma estatística nesta área, mas creio que quando um carro de alguém que está frequentando a igreja local é roubado esse tem a propensão de ir para outra que possui um estacionamento. Há igrejas que se reúnem no meio de tiroteio. Tudo isso leva alguns a saírem, apesar de amarem suas igrejas, para outra em que haja um ambiente de tranquilidade para eles e os seus.

Diante de tudo o que foi exposto,  fica claro que não podemos simplificar os motivos que os membros saem de nossas igrejas.

Minha proposta é que possamos começar a esboçar uma teologia para uma nova igreja que cresce e decresce, já que só temos no mercado teologias de crescimento ao longo deste últimos anos.

Fica o desafio de fazer uma análise dos motivos pelos quais em sua igreja as pessoas estão saindo e conversar com sua liderança mostrando os diversos fatores e ao tempo de criar estratégias para que se dê condições para que as pessoas possam ser retidas na igreja local, dentro do possível.

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comentários
  1. dionnamigo disse:

    Realmente muito elucidativo este estudo sobre um tema tão presente em nossas igrejas. Sou professor da Escola Bíblica em minha igreja local e com certeza vou comentar isto com meus alunos. Deus o abençoe.

  2. Anonymous disse:

    todo o segredo de uma igreja está exatamente na motivação correta de sua liderança, carater e desejo de entender e ensinar os ensinamentos biblicos de forma correta e sem distorções e preconceitos, sem uso de ferramentas do marketing contemporâneo mas confiando que o Espirito Santo de Deus e quem convence da justiça do pecado e do juizo, sem avareza e conceitos capitalistas, mas confiando unicamente na providencia divina aquela mesma que dava o mana no deserto diariamente ao povo de Israel no deserto.

  3. Concordo também com isso. Porém, há outros motivos que não passam pela liderança, conforme o artigo descreve. No livro que estou escrevendo, pontuo mais de 20 outras razões.Abs

  4. Nossa parabéns gostei muito do artigo, relata muitos problemas das igrejas hojé em dia. nota 10 que Deu os abençõe

  5. isaias disse:

    nao podemos esquecer o fato de muitas igjas q, deixam jesus de lado e ganham membros e nao almas para o reino,mas o que impoorta hoje em nossos dias (qualidade ou quantidade)?existem igjas p tudo e pra todos os gostos ,me ajude a entender

  6. Sandro disse:

    Paz querido muito tempo heim?Saudades!!!Particularmente, tudo o que foi posto é vero, mas não podemos esquecer que a "igreja"representada pelos seus lideres se tornou utilitarista e um fim em sí mesma, os crentes se tornaram interesseiros e barganhadores e muitas instituições oferecem-se para intermediar o processo, e lucrar o serviço prestado, ou seja se tornaram prestadoras de serviço, oferecendo desde de teologia apropriada, psicologia regressa colocando a doença depois dando a cura interior, bençãos personificadas, até descanço dos filhos no entretenimento ao qual se tornaram os cultos.Embora meus primeiros anos de fé foram em uma comunidade pentecostal conservadora, como eram as Assembléias de Deus, ainda existia amor comunitário, cansei de ver mendigos e homossexuais adentrarem aos cultos e serem curados, meu melhor amigo daqueles tempos foi homossexual e foi transformado pelo amor de Jesus na vidas das pessoas, pois o evangelho não era só pregado como o é hoje numa verborragia sem fim, mas era vivido, apesar dos equivocos, o amor imperava.Sinceramente a falta de amor e de vida no discipulado do Cristo são maioria entre líderes e membros, e o que acontece é que sem isso nada vale a pena, as pessoas sem Jesus logo se veêm numa coreografia de aflitos levantando as mãos nos cultos e cantando e dançando, pra sí , pois sabem que ninguém as ouve, mas a religiosidade coletiva traz conforto etc….Oro para que Jesus transforme a comunidade Cristã atual, ou que ela se converta, pois os modelos oferecidos televisivamente e nas demais formas de expressão cristã, são deprimentes, e assim continuando não restara muita gente nestas comunidades.Deus abençoe amigo.Paz a todos

  7. muito interresante adorei a matéria

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