TEMPOS DE RENOVAÇÃO – Ensaio sobre Novos Rumos para uma Eclesiologia das Igrejas Batistas da CBB – Parte IV

Publicado: 31 de dezembro de 2008 em Teologia prática
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  IV – Um roteiro Para Renovação DA ECLESIOLOGIA BATISTA BRASILEIRA

Ora, tudo o que foi exposto no capítulo anterior ensina deve levar a pensar em um conceito eclesiológico dinâmico pode ser repetida em qualquer tempo e lugar e o conceito de Igreja Peregrina crê-se que atende a este reclame.

O paradigma deve ser a flexibilidade de adaptação cultural, isto é, enquanto a Igreja caminha na história e na geografia, ela vai abraçando e trabalhando novas culturas para melhor cumprir sua missão. Por isso, não se deve debruçar sobre o Novo Testamento apenas para buscar as primeiras formas da Igreja nascente e copiá-las hoje. Embora tenham sido maravilhosas para o seu tempo, não são moldes para todos os tempos e culturas. A pesquisa eclesiológica deve concentrar-se na analise mais ampla dos princípios que nortearam a missão da igreja e que estão pressupostos nas descrições do Novo Testamento.

Uma eclesiologia relevante para hoje não pode ser construída com os olhos fixos no retrovisor. É preciso olhar para frente também. A demasiada preocupação com o passado tem impedido a igreja formal de perceber as mudanças que estão acontecendo ao seu redor e adequações que se fazem necessárias ao novo hábitat. As glórias do passado não garantem sucesso hoje.

O passado glorioso tem ofuscado a percepção do novo tempo e das adaptações que se impõem. Embora seja mais fácil fazer como sempre foi feito, não é porque algo deu certo outro dia que vai dar certo hoje. A igreja local precisa abri-se para o futuro.

Diante da constatação apresentada nesse ensaio e da proposta de se ser e fazer uma Igreja peregrina colocando suas digitais para credenciar a renovação da eclesiologia batista no Brasil como caminhos norteadores propostos têm-se:

1.            No lugar de implantar estruturas que pretendem ser universais e intemporais, e que são, por isso mesmo, inadequadas ao contexto de cada ministério local, e assim é que o programa e atividades da igreja mais se parece com um esforço para justificar a estrutura, para dar-lhe um sopro de vida, para faze-la funcionar, deve-se ter uma estrutura eclesiástica onde se forma em função das metas e programas de ação da igreja local, que refletem, por suas vez, as características do contexto social em que ela serve, e visam atender as suas necessidades especificas. A estrutura deve ser um mero instrumento para a efetivação do programa eclesial;

2.            Numa igreja peregrina adequadamente organizada os leigos têm relevância. Não apenas como auxiliares dos ministérios, mas eles próprios feitos ministros de Deus. “Fazer dos leigos meros assistentes dos pastores seria acentuar o clericalismo de nossas igrejas, e não atenuá-lo”.1 O envolvimento dos leigos, mesmo quando estes não estão integrados nas organizações tradicionais da igreja, sugere a adaptação dos métodos de administração por projetos ao âmbito da igreja. Projetos que, por não estarem vinculados a nenhuma organização em particular, poderão aglutinar e utilizar elementos de todos os grupos etários ou áreas de atividade. Essa visão torna implícita a necessidade de treinamento específico para tais leigos, de preferência em cursos, institutos ou seminários intensivos, de caráter prático. Só através dos leigos a igreja pode estar presente onde às coisas acontecem.

2.            A estrutura ideal deve prever a descentralização executiva, através do estímulo à formação de pequenos grupos de testemunho e ação. Esta era uma característica do cristianismo do primeiro século, que tem inspirado vários movimentos sócias no mundo inteiro. Tais grupos informais, muito frequentemente de geração espontânea, podem atuar em qualquer circunstancia onde o crente se encontre. Os lares, entretanto, seriam o seu habitat mais comum e natural. A família, que é a célula da sociedade deveria sê-lo também da igreja.

3.            Estas duas preocupações sugeridas: o envolvimento dois leigos e o estímulo à formação de pequenos grupos de testemunho, trazem à constatação do imperativo de uma liderança qualificada. Mais ainda: “a complexidade, a diversidade e o tamanho das igrejas urbanas impõem tremendas limitações à atuação direta e pessoal do líder na comunidade[2]. Ou ele se torna líder de um povo que atua e testifica, ou o seu ministério será de uma criminosa inexpressividade. Mais do que um líder que faz, outros a fazerem, para que o seu ministério seja multiplicadores pelo número de cooperadores que ministra.

4.            Uma eclesiologia  que priori-se lares. Desde que evangelho é evangelho  os crentes se reuniam em uma, em várias, em centenas ou milhares de casas, segundo seu crescimento numérico. Quando uma igreja se reúne em pequenos grupos algumas estão presentes:

– Torna mais fácil a evangelização. Qualquer família já fundamentada em sua vida cristã pode abrir sua casa e convidar vizinhos, parentes e amigos para compartilhar com eles sua experiência com Deus, dar algum ensino bíblico simples apropriado para os presentes e orar pelas necessidades de cada um.

– Abre muitos pontos de trabalho para colocar em prática o ministério sacerdotal de todos os crentes, sem necessidade de grande preparação acadêmica.

– Torna mais evidente a necessidade de que os ministérios dirigentes da igreja capacitem os santos para o ministério.

– Um fator fundamental na formação ministerial dos discípulos é que estão envolvidos na obra prática. O discipulado nos lares lhes possibilita esta oportunidade.

– Permite a extensão da obra nos diferentes setores da cidade devido à localização das casas dos irmãos.

– O espaço reduzido de uma casa de família faz com que o grupo que ali se reúne não ultrapasse as quinze, vinte ou trinta pessoas, número apropriado para se conhecerem, amares e servirem uns aos outros. Isto permite que em um mundo tão desumanizado, egoísta e indiferente, cada um seja integrado através do afeto e companheirismo que encontra na comunhão fraternal.

– Oferece um marco apropriado para o discipulado pessoal, o doutrinamento, a instrução, o conselho e a correção fraternal, todos os elementos essenciais para a formação dos novos convertidos.

– Dá ao discípulo, desde o inicio de sua vida cristã, a oportunidade de envolver-se na obra evangelizadora e diaconal.

– O conhecimento pessoal permite descobrir dons e vocações nos irmãos e ajudá-los a crescer neles.

Além disso, força, no bom sentido da palavra, os líderes a:

– Tenham um programa de ensino do discipulado.

– Dediquem-se à capacitação dos que irão liderar os grupos

– Mantenham uma relação intima com os discipuladores.

– Supervisionem os grupos das casas e exerçam autoridade pastoral sobre eles.

– Darem importância e espaço no programa semanal ao funcionamento da igreja nos lares.       

5.            A racionalização administrativa deveria ser outra característica da estrutura eclesiástica de uma Igreja Peregrina. Geralmente os líderes são  empíricos ao administrar suas igrejas. Mas aí está algo em que o mundo pode ajudar. Uma igreja deveria ser administrada como uma empresa. Em que sentido? No sentido de sua competência administrativa; ela possui uma organização, metas a alcançar, um orçamento pessoal assalariado, patrimônio, responsabilidades legais, etc. Se lhe falta à eficiência empresarial ela não vai adiante e fica obsoleta. Suas estruturas deveriam tornar-ser mais simples e menos onerosas. Menor número de organizações, de cargos, de reuniões.

6.            Um capítulo que está exigindo exame é o que trata da delegação de autoridade normalmente encerrada nas mãos de uns poucos líderes, nomeadamente do líder principal. Uma perfeita definição de atribuições possibilitará a ampliação da autonomia de ação dos ministérios, com um conseqüente aperfeiçoamento do processo democrático e capacitação de novos líderes. Pode-se dizer que o líder o que se diz em administração, do executivo moderno: o melhor dirigente é o que menos coisas tem para fazer, ou ainda: o bom líder não faz o que outrem pode fazer em seu lugar. Ele delega, reservando-se para as tarefas indelegáveis. A estrutura deveria ser dinamizada por afirmar-se a transitoriedade de todos os seus aspectos circunstanciais. Por mais excelente que nos pareça hoje, haverá sempre a possibilidade de aperfeiçoá-la amanha.

7.            O que deve estar em debate na igreja peregrina quanto sua eclesiologia não é os obstáculos bíblicos – o que é ser igreja – mas os relativos: como ser. É impreterível uma remodelação das estruturas da igreja organizada para que os membros das comunidades locais não sejam submetidos a viver entre as paredes eclesiásticas, numa realidade distante do mundo, sofrendo uma espécie de esquizofrenia histórica.

 8 .      A relevância da igreja local exige um olho nas escrituras, para não perder os obstáculos bíblicos. O outro deverá considerar seriamente as novas condições sociológicas. Orai e vigiai! A dinâmica do mundo moderno pede uma igreja mais flexível, descentralizada do templo, do clero, do culto, do púlpito, e de domingo. As comunidades em cidades grandes não devem exigir que os agregados centralizem a vida religiosa em algum edifício, como se a experiência com Deus e a vida cristã se resumissem aquele espaço. E seria possível pensar em “igrejas” nas indústrias e escritórios, fora do domingo e do templo, articulando cristãos de diversas denominações. É isso que a Mocidade Para Cristo e a Aliança Bíblica Universitária têm feito nas escolas e faculdades do país.

9.      A igreja em sua eclesiologia deve proporcionar um ambiente em que os cristãos possam-se relacionar uns com os outros num contexto não constitucionalizado. Deve oferecer através dos cultos e  outros espaços instrumentos para que os cristãos possam ser ajudados no relacionar-se entre si.Infelizmente, muitas igrejas locais tornaram-se tão institucionalizadas quanto às estruturas americanas. As pessoas cansadas de uma sociedade impessoal freqüentemente encontraram uma atmosfera impessoal também na igreja. As pessoas cansadas de ser “engrenagens” numa máquina secular descobrem que se tornaram “engrenagens” numa máquina religiosa.

A “igreja congregada” deve perceber que pode tornar-se um refúgio para as pessoas solitárias e frustradas. Ao proporcionar um ambiente que é uma comunidade dinâmica e amorosa, ela pode contrapor-se ao ambiente artificial em que as pessoas vivem. Francis Schaeffer comenta vividamente esse ponto:

Nossas organizações cristãs devem ser comunidades nas quais outros vejam o que Deus tem revelado no ensinamento de sua Palavra. Dever-se-ia considerar que é relevante aquilo que aconteceu na morte e na reconciliação de Cristo na cruz, bem longe no tempo, no espaço e na historia; que é possível ver algo bonito e diferente nesse mundo, em nossa comunicação, em nossas comunidades, em nossa própria geração […].[3]

A comunidade cristã e seu desempenho devem transpor todas as barreiras.

As igrejas da CBB têm sido principalmente locais de pregação e agentes promotores de atividades. A comunidade tem desempenhado um papel pequeno. Na igreja do Novo Testamento, essa comunidade experiente não era somente um estandarte, mas penetrou profundamente até as necessidades materiais de seus membros.

A Eclesiologia deve proporcionar caminhos de comunhão para que os membros da igreja tratem uns aos outros como seres humanos. Toda comunidade cristã, em todo lugar, deve ser uma fábrica experimental para mostrar que se pode ter afinidades horizontais com o homem e que isso pode resultar em uma comunidade que se interessa não somente pelo homem, mas pelo indivíduo; não somente pelos “direitos humanos” com maiúscula, mas pelo homem todo, em todas as suas necessidades.

A menos que o povo veja em nas igrejas não somente a pregação da verdade, mas a pratica da verdade, do amor, do que é belo; a menos que veja quilo que os humanistas certamente querem, mas não podem alcançar humanisticamente – a comunicação e a afinidade humana – pode ser praticado em nossas comunidades, deixe-me dizer claramente: eles na ouvirão e não devem ouvir.

10.       A igreja deve também apresentar seu resultado de uma eclesiologia sadia proporcionando estabilidade e segurança para as pessoas. Algo que, cada dia mais, a cultura está deixando de fazer. Numa época de mudanças sem precedentes, os cristãos podem dar às pessoas algo verdadeiro e confiável, em que possam crer.

Os Estados Unidos – como nação – abandonaram seus absolutos. È como um navio no mar, surpreendidos numa tempestade, sem âncora nem bússola, com rochedos perigosos nas proximidades.

Não é o que acontece às igrejas fieis á Bíblia. Algumas podem ter perdido o foco. Algumas podem ter-se tornado institucionalizadas. Outras talvez não estejam cumprindo o objetivo básico de sua existência. Mas não se pode larga a âncora nem a bússola. Há de se ter um fundamento ao qual se pode retornar. Um conjunto de textos que podem dar diretrizes e uma filosofia de vida que permite as pessoas olharem com realismo e certeza para o futuro. E claro que não se pode dizer isso da igreja liberal, a igreja que, tal qual os Estados Unidos, abandonou seus absolutos. Seja a igreja que voltou a usar as “palavras da Bíblia”, seja a do velho liberalismo, que abandonou até mesmo a terminologia bíblica, ambas deixaram seu fundamento de autoridade e não possuem algo sólido para oferecer.

Assim, a igreja Batista da CBB deve reconhecer, com uma visão renovada, que possuí respostas confiáveis para as necessidades mais profundas de nossa sociedade. Deve perceber que o pluralismo e as muitas vozes incertas da sociedade atual oferece oportunidades de evangelização sem precedentes e sem paralelo. Em todos os lugares, os homens estão confusos, mas têm a capacidade de fazer distinção entre a verdade e o erro. O Espírito Santo ainda está agindo no mundo, iluminando o coração dos homens e honrando a palavra de Deus.

11.      A igreja Batista da CBB deve ajudar os cristãos  à “viver no mundo” sem “fazer parte do mundo ”. Consciente ou inconscientemente, os cristãos não devem adotar os aspectos do sistema de valores que são contrários ao sistema cristão.

Deus ainda não falou para a igreja “sair do mundo” (1 Co 5.9-11). Ele nunca desejou que os cristãos se retirassem da sociedade e vivessem numa comunidade cristã. Pois de que outra maneira se cumpriria a ordem dada por Cristo de alcançar todas as nações com as boas novas, que não seja “no mundo”? Esse é um dos motivos por que a igreja está aqui na terra. Como é lamentável quando cristãos confundem “separação” com “isolamento”. Não se deve tornar-se parte do mundo – vivendo como o mundo – mas também não se deve isolar-se do mundo. Outros precisam (aliás, devem) ver na igreja de Cristro o que significa ser discípulos de Jesus Cristo.

Os líderes da igreja também devem ajudar os cristãos que vivem em meio a nossa cultura  importada a compreender os sistemas de valores que estão em conflito. No passado, quando a maioria dos americanos mantinha um sistema de valores cultural compatível com os valores bíblicos, quase não havia conflito. Os homens eram honestos nos negócios. Na escola, poucos alunos fraudavam as provas. Os costumes morais e sexuais eram basicamente cristãos.   Em termos genéricos, cristãos e não-cristãos podiam confiar uns nos outros e relacionar-se de modo harmonioso, pelo menos no nível social.

Mas hoje não é assim. E o problema na é apenas o de ser incapaz de confiar no outro. Em alguns casos é um problema de conseguir sobreviver financeira, acadêmica ou socialmente. Hoje em dia existem alguns negociantes cristãos que enfrentam a competição de indivíduos espertos e desonestos que somem com todos os lucros, contando mentiras descaradas. Em faculdades e universidades, alguns estudantes conseguem notas altas fraudando provas e plagiando trabalhos, deixando a pessoa honesta em grande desvantagem. E alguns jovens são desprezados ou isolados socialmente por não participarem de praticas e atividades contrarias à Bíblia.

Esses sistemas conflitantes de valores estão fazendo separação entre cristãos compromissados e não-compromissados. No passado, quando os sistemas de valores eram quase idênticos, a coexistência não era muito difícil para os cristãos. Mas hoje a historia é outra. Em alguns casos, existe um “grande abismo” entre alguém que é “cristão” e alguém que é apenas um “americano”. De novo, temos uma benção disfarçada. Costumava ser difícil explicar para as pessoas por que “ter nascido nos Estados Unidos” não era o mesmo que “ser cristão”. Hoje em dia, no entanto, isso não é um problema. A maioria das pessoas enxerga a diferença muito bem. E também nos oferece oportunidades ilimitadas de evangelização.

12 –        A igreja em sua eclesiologia deve reconhecer e compreender os efeitos culturais da revolução na comunicação, adaptando-se a eles.

John Culkin, um estudioso de Mcluhan, assinala que “cada cultura desenvolve o equilíbrio dos próprios sentidos em reação às demandas de seu ambiente. A formulação mais genérica da teoria afirma que os modos de uma pessoa aprender e perceber as coisas são influenciados pela cultura em que ela vive, pela língua que fala e pelos meios de comunicação com que está em contato. Cada cultura, por assim dizer, fornece a seus componentes um par de viseiras feitas sob medida”.[4]

A questão importante que deve ser incorporada pela eclesiologia Batista da CBB de hoje é como a atual explosão na comunicação está modificando a cognição e a percepção tantos dos cristãos quanto dos não-cristãos.

A questão importante é, de novo, que a igreja não deve (e não pode) desprezar as implicações culturais que emergem da nossa atual revolução na comunicação. Como Paulo no passado enfrentou o desafio de uma nova mentalidade deve-se adaptar nossas técnicas de comunicação para alcançar as pessoas onde elas estão. Não podemos descartar o aparato perceptivo delas, passando a comunicar usando métodos que nos atraíram no passado, mas que já não atraem a nova geração. Quer se esteja ministrando a crianças, a jovens ou a adultos, há a necessidade de adaptar e mudar para comunicar com eficácia. A mensagem é, claro que, permanece intacta; os métodos é que devem ser atuais.

Isso é claro, levanta outro problema! Na igreja tem-se tanto a antiga geração quanto a nova. De um lado, a geração mais antiga (não necessariamente na idade) sente-se ameaçada, insegura e pouco à vontade com as novas formas de comunicação, e, de outro, a nova geração é “repelida” pela “velha”.

Esse é um motivo a mais para os membros do corpo de Cristo entenderem a cultura e o modo como ela nos afeta a todos. Compreender pelo menos ajuda a criar tolerância, aceitação e amor uns pelos outros. Ajuda a própria igreja a viver em harmonia e em unidade – um ingrediente tão fundamental ao crescimento cristão quando o testemunho.

O próprio corpo de Cristo em ação é uma resposta significativa à revolução na comunicação. Ele sempre foi uma “forma” de comunicar uma mensagem profunda. Em sentido rela, a máxima de McLuhan, “o meio é a mensagem”[5],  aplica-se ao que Deus quis que o corpo de Cristo fosse. É um corpo de pessoas que, ao sair, criam uma atmosfera e um ambiente que comunica a mensagem cristã. Para os outros cristãos, a mensagem é de amor e de realidade. Para os não-salvos, o corpo unido diz que aqui há seguidores de Jesus Cristo, o Deus-Homem.

A igreja pode, então, tornar-se o meio que pode oferecer aquilo que a cultura não consegue: um ambiente que irradia aceitação, segurança e estabilidade – e em nível pessoal. Esse é o desafio que se apresenta às igrejas Batistas no Brasil do século XXI.

13 –         A igreja deve compreender os efeitos da cultura no estilo de vida, especialmente na juventude, e aprender a distinguir entre o que é uma violação dos princípios bíblicos e o que é uma violação das normas culturais que viemos a aceitar como absolutas.

Uma das conseqüências mais trágicas da transformação cultural é que alguns cristãos não conseguem tolerar emocionalmente uma mudança de estilo de vida porque vieram a equiparar certos aspectos externos com os absolutos bíblicos.  Alguns identificam essas duas coisas como um reflexo de comportamento não-espiritual ou pecaminoso – esquecendo que alguns de nossos grandes líderes cristãos do início do século tinham uma aparência bem semelhante.

É fácil ver como surgiu essa falsa conclusão. Aqueles que apresentaram primeiro esse “novo” estilo de vida eram jovens radicais, que também foram bem longe na apresentação de características de estilo de vida decididamente não-cristãs. Mas muitos cristãos, como com tanta freqüência acontece conosco, não conseguem fazer distinção entre as características que violavam os valores cristãos e aqueles que não violavam. Calmos na armadilha sutil de desenvolver idéias caricatas e fazer generalizações com base em conclusões falsas.

Ainda mais trágico é o cristão que deixa seu preconceito contra os cristãos também se estenda aos não-cristãos. Quando os cristãos não toleram nas dependências da igreja jovens não-cristãos cujo estilo de vida não se enquadra em certas normas aceitas pela classe média, culpados daquilo que Tiago chama especialmente pecado (Tg 2.9). Embora, em sua epístola, estivesse falando acerca de preconceito em relação aos pobres,  o princípio é bem claro. O simples fato de uma pessoa “parecer” diferente, não significa que seja imoral, efeminada ou, como alguns quase insinuam, subumana. Mas mesmo que essa pessoa fosse tudo isso, ainda assim é uma pessoa por quem Cristo morreu. È um ser humano e precisa de amor e compreensão.

Pode-se observar entre os cristãos, é claro, o mesmo problema em relação aos negros e outros grupos minoritários. Muitas vezes procuramos fazer racionalizações com base na Bíblia, para defender nosso pensamento preconceituoso e, à semelhança da maioria das seitas pseudocristãs, podemos fazer a Bíblia comprovar qualquer coisa. Basta tirá-la do contexto para sustentar nossos preconceitos subjetivos.

É realmente lamentável quando os cristãos , que deveriam ser o “sal da terra” e a “luz do mundo”, estamos tão doutrinados por um sistema de valores não-cristãos que já não conseguem sentir compaixão por aqueles que estão na mais profunda necessidade espiritual. Uma eclesiologia sadia deve estar atenda e ser resposta para essa área.

Assim estaremos mais perto de uma eclesiologia do Reino, ou seja, de uma Igreja que por ser peregrina sabe sobre o reino de Deus. Nas palavras de Shaull:[6]

Nossos programas de educação cristã, bem como nossos esforços no ensino, continuarão em crise até que descubramos como pode a comunidade cristã chegar a ser uma realidade em meio aos compromissos do homem moderno no mundo, e tomar ali novas formas que comuniquem os benefícios de Cristo a esse homem e nesse lugar…Se a igreja insistir em funcionar do mesmo modo que antes, breve chegará a hora em que sua presença não ter nenhum efeito….A presença do cristianismo dependerá da total e constante participação dos leigos nas diversas fronteiras da luta humana.[7]

A igreja local precisa desenvolver um programa de regate e integração cultural, em vez de adotar posturas separatistas. É imperativo aproveitar os elementos positivos e neutros da cultura brasileira para comunicar os valores do reino de Deus e redimir as posturas culturais destrutivas.

14 –         Por último a igreja deve fazer em sua eclesiologia tudo  o que puder para fortalecer o lar e se opor aos devastadores ataques cultuais contra o fundamento de todas as instituições. A vida familiar é a que mais tem sofrido com a crise americana. O número de divórcios está aumentando, enquanto, muitas vezes, os filhos dessas uniões rompidas são vitimas do egoísmo e da insensibilidade cada vez maior dos adultos, deixando as crianças em estado de desilusão e de insegurança.

O colapso e o abandono da maneira tradicional de encarar a vida familiar encontra correspondência numa variedade de experiências matrimoniais, tais como casamentos coletivos, casamentos experimentais e “viver juntos”  sem nenhum compromisso legal ou moral.

O lar cristão também está sendo afetado. O número de divórcios está aumentando num ritmo alarmante entre as famílias cristas. Mas, dividindo de inúmeras maneiras. As imposições profissionais têm, com freqüência, deixado a família “sem pai”, e as pressões financeiras ou sociais têm “obrigado” as mães a trabalhar fora.

A igreja também tem culpa. Imitando inconscientemente uma sociedade institucionalizada, temos desenvolvido formas e estruturas que praticamente mantêm divididas as famílias.

A maior contribuição que a igreja pode fazer para a nossa sociedade decadente é ajudar a edificar o lar. Famílias fortes edificam igrejas fortes e, mais que qualquer outro fator, lares fortes e igrejas fortes podem, juntos, estabilizar e revitalizar nossa cultura.

[1] New tasks demand new structures, in The life and mission of the church. Dederation News, W.S.C.F, n5, 1957.

[2] LESSA, Hélio S. A igreja e a cidade. In administração eclesiástica. Rio, 1 Trim. 1974, pg. 27.

[3] SCHAEFFER, Francis A . Manifesto Cristão. Brasília: Refúgio, 1985. 127p p.110..

[4] MCLUJ-iAN, M. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1988.

[5] Ibem. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1988.

[6] Nascido nos Estados Unidos, Shaull teve um papel importante na renovação do cristianismo latino-americano e prestou um apoio valioso às lutas populares no continente. É considerado um precursor da teologia da libertação, havendo quem divida a história da teologia protestante na América Latina em duas fases: antes e depois de Shaull. No Brasil, cumpriu um papel de estímulo e orientação nos meios evangélicos, principalmente junto a pastores recém-formados e a jovens estudantes, semelhante ao desempenhado pelo padre Henrique Vaz na juventude e na intelectualidade católicas. Ambos influíram nas idéias e nas escolhas dos militantes cristãos que fundaram e desenvolveram, ao lado de não-cristãos, a organização de esquerda Ação Popular.

[7] Richard Shaull. Surpreendido pela graça – Memórias de um teólogo. Trad. Waldo César. Rio de Janeiro: Record, 2003. 320p

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