TEMPOS DE RENOVAÇÃO – Ensaio sobre Novos Rumos para uma Eclesiologia das Igrejas Batistas da CBB – Parte III

Publicado: 31 de dezembro de 2008 em Teologia prática
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 III – POR UM CONCEITO ECLESIOLÓGICO PARA A IGREJA HOJE

Conceitos são melhores e mais eficazes do que modelos por um simples motivo: conceitos são formulados a partir de princípios o que não se faz com modelos que surgem a partir de institucionalismo.

A Bíblia descreve a igreja através de figuras de linguagem, sendo assim se tem a igreja, entre outras imagens,  como: povo de Deus, família de Deus, corpo de Cristo, Noiva, Videira, Exército, Templo vivo, Lavoura de Deus, Sacerdócio, Nação Santa.

Também se pode definir como Averyu Dulles definiu em relação aos modelos da seguinte maneira [1]:

1.            Instituição -radição Católico Romana – Conceito Básico – ano 500 até concílio Vaticano II

2.            Comunhão Mística – França 1950 começa se desenvolver este conceito entre os católicos – Mas sempre existiu na Igreja Católica chegando a Influenciar a Lutero. 

3.            Sacramento – A Igreja não somente possui os sacramentos , mas ela própria é um , porque é um sinal da graça de Deus .

4.            Arauto do Evangelho – Refere-se a teologia de Karl Barth – Que falava da Igreja como arauto de Deus que proclama a palavra de Deus e seu evangelho no mundo.

5.            Igreja como servo de Deus – Refere-se a teologia de Dietrich Bomhoffer – A Igreja deve ser  serva de Deus e de pessoas.

Outro autor que vale a pena recordar nessa secção é Dr.Snyder [2] com o seu modelo de igreja Reino de Deus onde seus discípulos formam esse tipo de comunidade.

Mas como bem se expressou Dulles [3] nenhum modelo pode ser tomado unicamente para se definir uma eclesiologia por mais orgânico que seja.

Sabe-se que cada paradigma tomado por modelo traz consigo um grupo de imagens favoritas, sua própria retórica, valores, certezas, compromissos e prioridades, trabalhando dois pólos excludentes: A igreja Instituição onde há: controle, hierarquia, agencias e organizações, ênfase no produto ou produção e possui um modelo de máquina; e a igreja como organismo onde há: capacitação de liderança, mutualidade e busca por consenso, filosofia encarnacional, centrada em pessoas e em processos orgânicos. Sendo o modelo orgânico o buscado numa eclesiologia sadia e funcional.

Atualmente no Brasil há três modelos em voga; Modelo Celular, Modelo de Propósitos e Modelo de Crescimento Natural da Igreja.

Neste trabalho o autor se propõe trazer a tona, para uma renovação da eclesiologia Batista da CBB, o conceito bíblico de igreja como peregrina e não “um modelo”. Faz isso com a ressalva de sua consciência de que o conceito não abarca todos as imagens da igreja, mas que está na interdisciplinaridade dessas.

Base Bíblica para o Conceito de Igreja como Peregrina

A palavra Peregrina [4] aparece poucas vezes no Novo Testamento, mas o seu significado é rico: paroichia, duas vezes; paroicheo, duas vezes; paroichos, quatro vezes. Apesar das poucas ocorrências do termo, ele é usado para descrever a própria natureza da igreja enquanto na terra. Significa o estado de peregrinação em que se encontra o povo de Deus aqui no mundo.

No AT, na tradução dos LXX, a palavra, e suas derivações, aparece muitas vezes. O povo de Israel é considerado paroichos. [5] Na realidade, as demais nações também o são. Isto significa que, aos olhos de Deus todos os povos são considerados como residentes alienados. Resulta daí que não podem imaginar-se como proprietários últimos da terra.

A experiência de Israel em sua paroichia tornou-se um sinal para que o povo fosse humilde. A lembrança da peregrinação e exílio – paroichia – no Egito deveria servir como elemento dinamizador, no sentido de um melhor tratamento aos estrangeiros em Israel, após a conquista.

Abraão é apontado como o tipo de paroichos, por excelência. Através da sua peregrinação, é descrito como aquele que aceitou a condição de exilado, peregrino, como um sinal de fé e obediência para com Deus. Assim, tornou-se um exemplo de humildade com que o povo deve apresentar-se diante de Deus, quando confrontado com o desafio de Sua promessa.

Há uma estreita relação das ocorrências do termo entre o Novo Testamento frequentemente faz alusão ou citação direta de algo registrado no Antigo Testamento (*Atos 7:6,29;13:16,17).

Em Hebreus 11, entre os grandes heróis da fé, Abraão é mencionado porque, na base de Gênesis 23:4 e 26:3, dele pode-se dizer: “Pela fé habitou na terra da promessa como uma terra alheia, morando em cabanas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa (Hb. 11:9), a razão é dada no verso 10: “Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus”. Abraão foi considerado peregrino e exilado – paroichos – na terra, pelo fato de esperar pertencer a cidade celestial.

Relacionados à conotação acima há dois fatos importantes: 1 – o conteúdo da paroichi do AT é aplicado por Paulo em relação ao novo Israel, aos hagioi – santos –  Igreja de Deus em Jesus Cristo. Os cristãos foram uma vez estrangeiros e peregrinos, mas agora perderam aquela condição. São “concidadões dos santos e membros da família de Deus”. Ef. 2:19.

A implicação deste fato é que, em relação a Deus, a peregrinação ou o exílio do homem acaba em Jesus Cristo, que se transforma, assim, no documento da naturalizão – ou adoção – para nova cidadania. 2) o outro fato é que existe uma tensão dinâmica entre o não mais e o ainda.

A igreja é descrita como ekklesia e paroichia, ou, para sermos mais exatos como Ekklesia ela é também paroichia. O caráter da igreja como peregrina surge em Hebreus 13:14 onde com a ajuda de I Pd 1:1, entende-se que os cristãos são estrangeiros dispersos e podem ser identificados com as doze tribos dispersas (Tg.1:1).

Implicações

A palavra paroichia com relação à igreja demonstra o seu caráter dinâmico: é uma igreja em movimento, em ação. Manifesta-se por uma presença dinâmica e criativa no mundo.

A igreja não deve adotar para si os padrões do presente século (aion rotos) com os quais não se deve conformar (Rm. 12:1-2). A inconformação que Paulo menciona não deve ser objeto de um raciocínio reducionista da vida e história dos homens. Ela abrange principal e fundamentalmente estruturas de iniqüidade e injustiça que traduzem o pecado em suas conseqüências tristes e lamentáveis para a vida das pessoas e da sociedade. A inconformação tem a ver com o poder que se esconde atrás da aparência das coisas, neste caso, o poder do mal, que se opõe a obra de Deus no mundo. O poder das trevas procura impedir por todos os meios possíveis  a presença e manifestação do reino de Deus.

A igreja é uma comunidade de fé. Como paroichia, a igreja deve estar sempre procurando o lugar segundo a vontade de Deus para ela, ainda que esse lugar seja o do sofrimento, da incompreensão, da diáspora. Suas raízes, como as do peregrino, devem estar voltadas para cima. O único solo adequado para a igreja lançar suas raízes é o solo da vontade de Deus. Essa vontade não é tanto uma questão de apropriação subjetiva, mística, mas o viver uma vida de compromisso com os valores do Reino de

Deus, que em última análise, se interrelacionam e invadem a história do homem.

A nossa esperança não deve ser firmada em coisas terrenas, mas em Cristo. Cristo foi um peregrino.

A igreja como peregrina, deve ter visão. É a visão da fé, de situar-se agora na ação e movimento de caminhar para o amanha. Visão é uma palavra do futuro; ela se enquadra não somente no agora, mas muito mais no futuro. O indivíduo ou grupo que tem visão demonstra inenarráveis, demonstrada disposição de trabalhar, de se sacrificar, de dar-se a sim mesma para que o futuro possa nascer ou acontecer. Para a pessoa ou grupo de visão, a vida é uma peregrinação, um estado de espírito, antes de ser uma jornada; para tais, o amanha é sempre a fronteira, o país inexplorado. As pessoas, ou grupo, de visão, podem bem ser classificados de “cristãos horizontais”, ou seja, cristãos que possuem a capacidade de ver além do horizonte. São autênticos porteiros do amanha.

A igreja, como peregrina, deve demonstrar abertura para o futuro. O risco da abertura emerge a luz do encontro com Deus e a luz do encontroo com Deus e a luz da visão. No dizer de Leonardo Boff [6] “a igreja encontra-se diante de uma nova sociedade e com novas chances, opções de presença”. Quem não conhece os erros do passado – sentenciava Hegel – está condenado a repeti-los.”O olhar para o  presente e para o futuro que se abre não deixa tempo para cantar as conquistas do passado. Elas já foram celebradas apologeticamente pela instituição até a saciedade.

“Face a nova situação, a igreja deve”, nas palavras proféticas de Karl Rahner,

                                         Ir com coragem, para o novo e para o ainda-não-experimentado até o extremo limite, até lá, onde para uma doutrina e consciência cristas, clara e indiscutivelmente não pode ir além. Na vida prática da igreja hoje o único tuciorismo permitido é o tuciorismo da ousadia… O segundo hoje não é mais o passado, mas o futuro”. Se há alguém ou algum grupo que pode ousar então esse é o cristão, porque sabe que é conduzido pelo Espírito Santo que o leva de verdade a verdade. Quanto mais se escorar em si mesmo e em seu passado, mais corre o risco de ser infiel aos preceitos do Senhor presente como ressuscitado no mundo e de afogar o Espírito Santo.[7]

Borkovsky, líder batista na Alemanha, falando no 1 Centenário Batista em Salvador (1982) lembrou adequadamente: “irmãos, quando Cristo voltar Ele quer encontrar um Corpo vivo, a Sal Igreja, não um túmulo enfeitado.” Uma ênfase só ao passado pode levar-nos a atitude  de túmulo adornado.

A abertura para com o futuro implica em um passado. Há uma Harã a ser deixada. Há um passado a servir de memória e referência. Mas a determinação da presença hoje não pode ser formada só pela consideração do passado, mas especialmente pela visão do futuro. O passado é importante não para ser ressuscitado e revivido, mas para ser re-criado a luz da visão do futuro, a luz do lugar que se procura atingir, a luz da utopia crista. Só assim se terá ou se tem um presente.

A disposição mental que se requer do peregrino é a de odre novo para vinho novo (Mateus 9:16-17) a fim de que as experiências dinâmicas da vida sejam analisadas e integradas ao modo de ser cristão, após passar por um processo criativo de fermentação.

Além disso, o termo paroicheo aponta-nos a direção que deve tomar as realizações, motivos e estruturas da igreja no mundo. A direção para oikia. A igreja deve apontar para Deus. O mundo precisa ver e sentir nela os caminhos da vontade de Deus. Isso significa agir como agencia de redenção e reconciliação para com o atual sistema de coisas governado pelo pecado. Pressupõe uma descontinuidade e ruptura entre os valores do Reino de Deus e os valores do reino das trevas.

Quando se olha para o contexto histórico brasileiro onde milhões vivem sem terra, a lembrança do modelo de igreja como paroichi – peregrina – deveria servir de estimulo a uma ação em favor dos que, desprotegidos e esquecidos por parte dos poderosos da terra que a tudo e a todos procuram possuir e controlar, no entanto são contemplados ao longo da história pela maravilhosa visitação de Deus em termos de libertação.

A igreja como peregrina significa também que o estado de peregrinação em que a igreja se encontra não é final e nem definido, mas provisório. Não é aqui o lugar do nosso descanso. A caminhada cristã no mundo implica nesta direção final: o fim em que a comunidade de Deus se tornará realidade pela quebra dos valores egoístas e individualistas em virtude de uma nova visão do homem e da sociedade tornada possível pela compreensão e realização dos valores do Reino de Deus.

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